Espaço Poético

O Precioso Tema, de Myrtes Mathias

Cantai, poetas, as flores, as estrelas,
as nuvens, o oceano e o luar.
Eu ficarei com a alma dos homens
como tema e como razão para cantar.

Almas puras das crianças do Brooklin
que me fizeram conferencista sua;
alma transparente de Davizinho
que juntou dinheiro para Missões,
mas que não resistiu à tentação
de um pára-quedas colorido
e que confessa seu “pecado”,
prometendo dar quatro vezes mais.

Alma simples do homem que vende sorvete
e sorri do meu jeito de falar;
almas dos jovens que pedem compreensão
nas entrelinhas das cartas;
almas cansadas dos velhos
que encomendam poemas de consolação;
alma dos doentes isolados
que não ousam estender a mão.
Alma do sertanejo que fala de pobreza
sentado num tamborete de couro cru;
almas que se debatem no fogo do remorso
dos homens que aguardam julgamento
e que se confessam irmãos de Barrabás.

Alma da gente de minha terra,
que em minha língua pede amor;
alma da gente de outras terras,
que em outras línguas também pede amor.

Cantai, poetas, as flores, as estrelas,
as nuvens, o oceano, o luar e o deserto.
Eu ficarei com a alma dos homens.
Sei que uma rosa é uma rosa;
que o deserto é um lugar de solidão,
sei que o mar traz nostalgia
e que do céu desceu a salvação.
Mas o que o meu próximo traz dentro de si
é um enigma que só Deus pode sondar:
sentados no mesmo banco,
comendo à mesma mesa,
tendo suas mãos nas minhas,
sei tanto sobre o que pensa
quanto o sábio da estrela
que ainda não pôde encontrar.

No entanto, sua alma vale mais
que a vida de um Deus.
Tem o peso de um mundo inteiro,
para reencontrá-la Deus abandonou o céu.
Aprisionou-se num corpo de Criança,
suou gotas de sangue, se entregou na cruz.
Não importa que o seu mistério me faça limitada,
não posso ser tudo – serei como o nada
em que se transforma o fósforo
depois de acender a Luz.

Cantai, poetas, as flores, as estrelas,
o mar, a amplidão.
Ficarei com as almas dos homens,
que podem ser espelhos onde Deus se reflete,
que podem povoar o inferno,
se cerrar meus lábios
e cruzar minhas mãos.

(Extraído do Livro: “ Há Um Deus em Tua Vida” – págs.55 – 57)


MATERIALISTA DE MEIA-PATACA

MATERIALISTA DE MEIA-PATACA

Neimar de Barros

Que outra prova você quer de Deus?
Assinaturas com firmas registradas
De Lucas, João, Marcos e Mateus?
Mais nada ???

Não quer um xerox do testamento de Abraão?
Uma foto da despedaçada Arca de Noé?
As folhas secas da parreiras de Eva ou Adão?
Não quer o vídeo-tape das Leis dadas a Moisés?
Você quer prova, prova maior que o sol?
No entanto, você nada vê, fechado como egoísta caracol.

Quer um “slide” colorido da Torre de Babel?
Quer o Sermão da Montanha gravado em fita?
Quer a luneta de quem viu abrir o céu?
Quer a mesa da Santa Ceia arrumada e bonita?
Quem sabe quer o galo que cantou duas vezes?
Ou quer a coroa que rasgou a fronte de Cristo?
Ou quer o relógio que marcou seus últimos meses?

Você quer prova, eu darei, não desisto!
Quer o original do repórter das Oliveiras?
Quer o filme da caminhada do Calvário?
Quer a corda em que Judas fez a besteira?
Já vi, você quer tirar Deus do seu dicionário!
Pois então, materialista de meia-pataca,
Entre com seus sábios num laboratório,
De uma vez,
E com todas suas ciências imbecis e fracas,
Faça um homem como só Deus fez:

Com raciocínio, personalidade,
Com liberdade unida a responsabilidade,
Coloque fé e graça
E dê-lhe talentos para sair pelo mundo.
Assim Deus morrerá na história que passa.
Mas, se não conseguir nas tentativas,
Humilhe-se, reconhecendo o erro

E colocando sua “genialidade” em desterro
Saiba que somos nada sem Ele,
Viemos e vamos para Ele,
Mas ele nos dá opção.
E eu quero morrer pedindo sua mão.

Vou caminhando,
Tropicando,
Errando,
Levantando,
Mas reconhecendo que Deus é bom
E gritando a todo segundo:
“Sagra este mundo!
Paz! Paz! Paz!”

 


MEUS QUINZE ANOS – Myrtes Mathias

É lindo descobrir que o botão
se transformou em rosa –
é lindo fazer quinze anos.
Ser moça e ser criança ainda
é um poema tão lindo
que é difícil agradecer.
Uma vida inteira para ser vivida,
milhares de horas para serem gastas,
uma existência para investir.

Meu dia de hoje.
Maravilhoso dia de hoje,
que não se repetirá jamais;
será um perfume que fica,
uma música que se ouviu um dia.

Meu dia de hoje.
Dia de ser feliz,
de cantar, de rir,
de escolher.
Dia de receber.
Dia de pedir a Deus o essencial,
o que ficará para sempre:
“Ensina-me, Senhor, o Teu caminho,
guia-me, Senhor, por vereda plana
porque são muitos os que me espreitam.”

Meu dia de hoje.
Dia de festa,
de beleza, de felicidade,
da vontade de ser sempre assim.
Dia da responsabilidade,
do preço que a gente paga
para ser moça e para ser feliz.
Os amigos me olham,
a família espera,
o mundo indaga,
procurando em mim algo diferente,
algo que lembre Jesus.
“Ensina-me, Senhor, o Teu caminho”,
perfeito, sem falhas, sem manchas,
sem remorsos;
ensina-me Teu caminho de amor e luz.
Cheguei à encruzilhada,
vejo muitas estradas,
não sei qual escolher.
Ensina-me, Senhor,
o caminho do serviço,
da vida útil,
do exemplo vivo;
do que não me arrependerei
– o Teu caminho, Senhor.

Amanhã meu dia de hoje será ontem,
quero continuar com a cabeça erguida,
quero sentir saudade,
deixar saudade do meu dia de hoje.

Dá-me, pois, Senhor, o Teu caminho,
mesmo que tenha a forma de uma cruz.
Ouve, Senhor, a minha petição:
Segura minha mão,
até que eu me pareça com Jesus!


Moça, me dá uma rosa! – Mario Barreto França

Era um triste contraste aquele, distinguido

Numa encosta escarpada e num vale florido:

Lá no morro, o barraco ao vento se inclinava;

No vale, um palacete, entanto, se enfeitava

De rosas, de jasmins, de pássaros joviais

Que adejavam, cantando, os lindos roseirais…

O barraco de zinco e o bangalô de pedra

– Onde a miséria mora e onde a fartura medra –

Eram naquela parte estreita da paisagem

Antônimos cruéis que, na louca voragem

Da vida singular, excêntrica ou profana,

Confundem na incerteza a indagação humana…

Qual a causa que leva um dia a Onipotência

A dar rumo diverso a cada uma existência,

Que às vezes se coloca em destaque chocante,

Como revolta muda ou protesto gritante?

Por que, sem ter noção ainda do pecado,

Há de nascer alguém surdo, cego, aleijado?

Por que será, meu Deus, que, pobre e sofredor,

Se arrasta, muita vez, quem só pratica o amor?

E o eco repercute, ao longe, os brados meus:

– Para ser manifesta a grandeza de Deus!

No casebre de zinco, um garoto pretinho

Vivia a contemplar das palhas do seu ninho,

Lá embaixo, ao sopé do morro proletário,

O formoso jardim do seu sonho diário

Que, à sua alma infantil de ingênuo espectador,

Representava o céu numa festa de flor.

Numa certa manhã de ensolarado brilho,

O garoto desceu do morro, maltrapilho,

E ficou enlevado, a contemplar, assim,

O viço tropical de tão belo jardim…

Como era tudo ali cromático e festivo!

Porém aquela flor, de rubro muito vivo,

Exercia sobre ele uma fascinação,

Que a mundos irreais sua imaginação

Levava a percorrer em vôos de magia,

Nas asas alvi-azuis de sua fantasia…

E, nesse doce enlevo, angélico semblante

Ele descortinou, olhando-o fascinante,

No veludo-cristal da corola formosa

Daquela rubra flor, daquela linda rosa…

E, a seu ávido olhar, a aparição amada

– Anjo, deusa ou visão de algum conto de fada

Saiu da inspiração de um sonho rosicler,

Para se revelar simplesmente mulher:

Jovem, de olhos azuis e loira cabeleira

– Nova Branca-de-Neve ou Gata Borralheira…

E por isso ensaiou um pedido inocente:

– Moça, me dá uma rosa, uma rosa somente!…

Mas a jovem falou com desprezo invulgar:

– Vá embora daí! Não torne a importunar!

O garoto ficou ainda um pouco parado;

Depois, triste, baixou os olhos, humilhado,

E saiu arrastando os pés, devagarinho,

Pela esteira sem luz do seu pobre caminho.

Como lhe pareceu tão mau o injusto o mundo;

Sufocou na garganta um soluço profundo,

Numa interrogação que ficou sem resposta:

– Por que, por que de mim essa moça não gosta?

Por que ao desgraçado aqui se nega tudo,

Até mesmo uma rosa? … uma rosa?!…

Contudo

Tão pouco ele queria! E esse pouco, entretanto,

Lhe negavam sem dó, para aumentar-lhe o pranto…

O mundo é sempre assim: esconde a mão ao pobre,

Para fartar na orgia os caprichos do nobre!

No outro dia, bem cedo, às grades do jardim,

O garoto de novo estava a olhá-lo, assim:

Na ânsia de retratar na alma sentimental

O quadro multicor daquele roseiral,

Para poder sentir, dentro da própria vida,

O sonho irrealizado, a glória inatingida…

Quando a jovem surgiu de novo, entre os canteiros,

Seus olhos outra vez brilharam prazenteiros,

E cheio de esperança, à jovem tão formosa,

Com ternura pediu: – Moça, me dá uma rosa!

Agastada, porém, com o pedido insistente,

A jovem lhe negou o esperado presente:

– Vá embora daí, se não eu chamo um guarda!…

Temendo a intervenção enérgica da farda,

O pretinho correu em direção ao morro,

Lançando ao ar parado um grito de socorro,

Que não achou, naquela esplêndida manhã,

Qualquer repercussão na piedade cristã…

O tempo começou a mudar de repente;

Fatídico soprava o vento fortemente.

Tremendo, o órfão entrou no barraco de zinco;

Viu as horas passar: duas, três, quatro, cinco…

E ele, que lá vivia apenas por favor,

Não tinha pai nem mãe, ele não tinha amor…

Deitou-se; adormeceu, sonhou com o paraíso

– Edênico jardim – onde ele viu, iriso,

O sol resplandecer numa rosa vermelha

– Sua rosa vermelha! – e ante ela se ajoelha…

Nisto, estranho rumor, como um forte trovão,

Fê-lo um anjo notar, levando-o pela mão,

Para, de um lindo quadro, erguer o tênue véu:

– Ele entrava no céu… ele entrava no céu!…

Mas, na manhã seguinte, ouviu-se o comentário:

Durante o temporal, no morro proletário,

Houve um desabamento; e o pretinho – coitado! –

Ingênuo sonhador – morrera soterrado…

Sob um sol indeciso, à hora costumeira,

Regava o seu jardim a jovem jardineira.

Por um gesto instintivo, ergueu o olhar às grades:

– Vibrava no éter frio as ondas das saudades –

Não viu, como esperava, o rosto do pretinho:

– Não voltaria mais? Seguira outro caminho?!…

E, nessa confusão de um vago sentimento,

Sentiu no coração fundo arrependimento

De não ter satisfeito o anseio do menino…

Foi quando alguém lhe trouxe a notícia:

– O destino

Tinha roubado a vida ao pequenino triste!…

Ela não pôde mais; ela não mais resiste,

Prostrando-se a chorar…

E, logo, decidida,

Tirou de seu jardim, não só a flor querida,

Mas todas; e as levou com carinho e cuidado

Pra com elas cobrir o corpo inanimado

Do pretinho infeliz…

E ele, que não tivera

Na existência um lençol, ganhou da primavera

Um manto todo em flor, a envolver-lhe, afinal,

Com carinho e perfume, o corpo angelical…

***

No contraste da vida infausta ou abastada,

Nós somos muita vez como o órfão e a galã,

Negando do consolo uma rosa encarnada,

Para as faltas de amor chorarmos amanhã…

E ao peso acusador de líricas saudades,

Vamos levar depois às mortas ilusões

Todo o rubro rosal das oportunidades,

Que deixamos passar sem úteis decisões…

Que possamos abrir as grades do egoísmo

E oferecer a quem suplica afeto e paz

A rubra flor da fé do eterno cristianismo,

Que na alma, a rescender, não murcha nunca mais!

 


ELE ME AMA… E ISSO ME BASTA – Myrtes Mathias

Justamente quando as preocupações aumentam
e as interrogações se focam,
tantas e tão insistentes,
Será que, Será que,será que,
num crescendo que culmina em lágrimas de desespero
a Mão tão poderosa quanto terna pousa-me sobre a cabeça!

Por que essa preocupação com filhos, pais, família, trabalho, amanhã, futuro? Coloca no coração uma verdade eterna.
Eu amo os teus filhos e a tua família, mais do que tu mesma és capaz de fazer ou imaginar.
Tudo, todos são propriedades minha.
Ou leva-te o orgulho, ao ponto de te julgares dona, autora autônama de alguma coisa?

Mesmo teu trabalho… se a obra é minha,
se o Reino me pertence, que importa a ti a aprovação dos homens
ou a apreciação do mundo?
Há um tempo determinado para a entrega da tarefa?
Ótimo, Sou o Senhor do tempo.
Que representa dias, meses, horas em face de minha eternidade?
Tenho eu falhado alguma vez?
Não te chegou sempre a resposta, a solução no último instante?
Não tenho eu te dado sempre as forças que você necessita?
E nunca te passou pela mente ser esta uma forma de instrução
uma parte do plano para que chegues aonde eu desejo?

Finalmente…
De uma vez por todas, grava na mente e no coração a verdade
que nem mesmo minha onipotência pode mudar. Eu te amo
mais do que teus Filhos, teu marido, tua família, teus amigos
mais do que tudo e todos… Eu te amo.
Quando afirmei: “Não fostes vós que me escolhestes… pelo contrário eu vos escolhi…” tu estavas lá incluída na escolha.
A iniciativa foi minha.
Eu te amei primeiro.
Por isso, mesmo quando falhas, quando erras, quando foges de mim, eu te amo e velo por ti.
Grava isto sempre e Lembra-te disto sempre a todo instante,
principalmente quando a solidão for maior.
Quando o desânimo, a fadiga e o temor ameaçarem, até mesmo quando eu te parecer distante e ausente, lembra-te teu nome está em minha mão.
Apesar das dores, não posso voltar atrás de uma decisão tomada, uma promessa feita.

Eu te escolhi.
Sou teu Deus, teu amigo, teu Pai e teu irmão.
“Eu te amo.”


A ALEGRIA VEM PELA MANHÃ – Myrtes Mathias

É maravilhoso despertar assim
com um hino no
coração,
quando ainda ontem rodeavam-me
águas de angustias e solidão,
frágil parede se interpondo
entre mim e o abismo,
a pomba da esperança voltando ao abrigo,
sem o ramo de oliveira
que fala de águas baixando,
e do sol que volta a brilhar.

É certo que as horas se fizeram dias,
os dias se tornaram meses,
e a resposta não vejo ainda.
Mas, aqui dentro, Senhor, no coração,
sinto que a causa não está perdida,
que o corpo tomba, mas a alma não.
No momento certo,
Tu mesmo me abrirás a porta
sobre o Arará coberto de verde,
o sol no alto e no coração;
as águas de perplexidade e angustia
lembradas apenas para efeito
de contraste e gratidão.

Perdão, Senhor, pelo tempo
que Te estou tomando,
quando Tens todo um universo para dirigir.
Considera, porém, que não tenho ninguém
capaz de Te substituir.

Mas crê, é muito mais por amor
do que por medo
que preciso, tão cedo,
procurar a Tua direção.
Para enfrentar o dia que está nascendo,
é preciso Te ouvir, dizendo
que me amas, apesar dos pesares,
que não me abandonas, mesmo quando erro,
que Tuas promessas jamais falharão.
Paro de escrever,
mas não de estar Contigo:
sem um Amigo
é impossível trabalhar na vinha.
Mantém, pois, a Tua mão na minha,
faze do meu dia um hino de louvor.
Que eu repita ao começar cada tarefa,
por menor quer seja onde for;
– Estou pronta. Qual é a ordem, Senhor?”

(Extraído do Livro: “Vim Ficar Contigo” – págs.45-46)


MENINA SEM NOME – Myrtes Mathias

Magrinha, sem nome, vestida de trapos,
lá vai pela rua a menina sem lar.
Os pés sem sapatos, os olhos sem brilho
e no coração vontade de amar.

Criança sem dono, com fome, com frio,
arrastando nas ruas sua sorte sem dó,
perguntando à Vida (por que sem resposta)
“Se sou tão pequena, por que vivo só?”

Num tempo bem longe, perdido no tempo,
tinha uma casa de flor na janela:
lá dentro era quente, bonito, alegre,
papai era forte e brincava com ela.

Mas um dia a desgraça bateu lá na porta,
numa noite fria papai foi embora:
por onde saiu entrou a tristeza,
entrou a pobreza que estava lá fora.

Nunca mais a miséria deixou sua casa:
mamãe trabalhava a mais não poder,
a flor da janela murchou sem ruído,
tudo foi vendido pra ter que comer.

E mamãe que era boa, era jovem, era bela,
como a flor da janela, começou a murchar
e numa noite, sozinha, chamando: “filhinha”,
trocou esta terra por outro lugar.

Então a menina saiu pelas ruas,
puxando a saudade em vez de brinquedo,
pedindo um pão, chorando de frio,
num mundo vazio, fugindo de medo.

De medo dos guardas, de medo do mundo,
de medo de tudo, de medo da vida,
chamando “mamãe”… baixinho, baixinho,
sentindo no peito a saudade doída.

Vontade de ir embora, sem saber pra onde,
fugir deste medo, da fome, da dor,
encontrar um cantinho onde haja alegria,
uma boneca de pano, um resto de amor.

Na morte que a espreita de um canto da rua,
talvez ela encontre a alegria perdida.
Assim, segue sozinha, de olhos enormes
abertos no nada, fugindo da vida…

Menina sozinha, sem nome, sem teto,
que foge de tudo, suplica em vão?
Só pede um afeto, um lar, um carinho,
um reto caminho – o teu coração.

(Extraído do Livro: “Menina Sem Nome” – págs. 11-12)


ALGUÉM COMO DANIEL – Myrtes Mathias

Seria ingênuo e ridículo,
se não fosse tão sincero o anseio.
Mas a quem buscar,
com este coração sensível,
este corpo frágil,
e esta alma que sonha,
senão a Ti,
que me conheces,
pois que me fizeste?

Quero amar alguém, Senhor,
mas alguém que me ajude
a chegar cada vez mais perto de Ti.
Reconheci
que a felicidade é relativa
e proporcional à proximidade Tua.
De que aproveita ser admirada,
querida por alguém que não Te conhece,
que não Te reconhece
como Senhor e Amigo verdadeiro?

Quero ser para aquele que Te peço
uma das demais coisas
que lhe acrescentas,
porque antes Te buscou primeiro.

Quero um amor tão forte e duradouro
como uma prova de que de Ti desceu,
capaz de compensar minha fragilidade,
que, tendo como meta a eternidade,
já na terra seja um pedaço de céu.

Não Te peço um Davi de Miguel Ângelo,
nem um César com poder na mão:
peço-Te um homem verdadeiro,
“que eu possa chamar de companheiro”,
que antes de esposo seja meu irmão.

Quero alguém que eu admire tanto
e que saiba tanto se fazer amar,
que eu não me importe de diminuir
para fazer grande o comum porvir
do qual me orgulhe de participar.

Quero-o de joelhos diante de Ti,
mas de pé diante do mundo cruel,
que nada tema, senão Te ofender,
que nada busque, senão Teu querer:
No mundo de hoje um outro Daniel.

(Extraído do Livro “Menina Sem Nome” – págs.202-203)


A ABELHA E A FLOR – de Myrtes Mathias

Meu amor teve que ser assim:
puro e doce,
mas sem possibilidade de eternização.
Como a abelha e a flor,
que, efêmeras e dóceis ao destino,
num gesto inconsciente e belo
dão o melhor de si mesmas.

Mas um dia a abelha vem
e não encontra a flor;
outro dia a flor espera
a abelha que não virá jamais.
De tudo fica apenas um fruto,
ou um pouco de mel.

Mas o mundo é sempre melhor
depois que uma abelha encontra sua flor.
Meu amor teve que ser assim:
uma estranha forma de posse,
etérea, sutil,
incompreensível para o mundo
e para nós mesmos,
na sua busca de sublimação.

Um dia seus lábios ensaiaram um sorriso
que não se completou.
Um dia meus olhos procuraram os seus
e se fecharam para ocultar as lágrimas.

Nada mais restava que um poema.
Mas a humanidade é sempre mais feliz
quando aprende uma nova canção.

Pouco importa ao mundo
o autor ou o motivo.
Pouco importa a todos
que morra a abelha
ou que murche a flor.
Melhor assim.
Ninguém se lembrará de algo
que foi belo demais para ser eterno,
mas muitos, quase todos,
cantarão a nossa canção,
porque é a canção do princípio
e da razão de tudo: a canção do Amor…

(Extraído do Livro Bom Dia Amor – pgs.50-51)


ESCREVE EM MIM – Myrthes Mathias

poesia-ESCREVE EM MIM

Esta linda poesia estava guardada nos pertences da querida irmã Olga Menezes de Oliveira. Em vida, ela amava a poesia e principalmente o Senhor Jesus e a Sua Palavra.


Assim Cantaria Barrabás – de Myrtes Mathias

Desde criança venho perseguido 
por um destino sem contemplação:
para dormir eu encontrei a rua,
nada cobriu minha pele nua, 
para comer fui mendigar o pão.

Assim cresci em minha muda espera,
na obsessão de um dia me vingar
do sentimento que meus pais negaram,
do abandono a que me condenaram 
não tendo tempo nem para me amar. 

Tornei-me salteador... 

Parava, às vezes, mudo, pensativo, 
no ermo perdido, fraco, incapaz;
olhando o céu e desejando um fim:
- Por que  Jeová, Tu me fizeste assim, 
porque nasci imundo Barrabás?

Até que um dia (pois há sempre um dia
no destino bom ou mau de cada um)
ouvi de um Homem vindo da Judéia,
que milagres houvera lá na Galiléia,
que mortos reviveram em Cafarnaum.

E a pergunta que havia em meu peito
fez maior. E, sem poder conter
o desejo de ver o tal Messias,
que mensagem nova nos trazia, 
saí, buscando-O, e me prender.

Dias depois, na solidão da ceia,
um soldado irônico me chama:
- Vem, Barrabás, que amanhã é Páscoa,
vem sentir como o povo te ama, te ama...
Sigo tremendo...
De Pilatos a voz estranha, horrível,
abafa a algazarra enlouquecida:
- A quem agora desejais soltar,
a vosso Rei, que vos quer libertar,
ou Barrabás, que tem roubado vidas?

E a multidão satânica delira:
- Ai falso Rei, Tu não escaparás!
Foi sacrilégio o que fizeste aqui:
dizer-te Rei do trono de Davi.
Na cruz o Cristo! Solta Barrabás!

E só então o Homem condenado
volta os olhos para me encarar.
Por que me olha assim com tal doçura?
Dessem-me a cruz, a forca e a tortura,
mas nunca a força e o amor dAquele  olhar.

Levam-no ao Gólgata. Tomam os madeiros
e no maior passam a prender Jesus.
Amedrontado e cheio de aflição,
atravesso a imensa multidão
e oculto-me aos pés daquela cruz.

E vejo o Mestre receber vinagre,
em meio a revoltante zombaria;
Vejo sua carne pálida rasgada,
Sua cabeça de espinhos coroada e
 “os soluços imensos de Maria”.

E eu, salteador que o povo inda temia
(que pelos meus altos merecia a cruz),
suplicando, dirijo-me a Maria:
-Responda-me: quem é este Jesus?

E Madalena, quase num soluço:
- É o Cristo. É Deus, portador da paz.
Por nosso amor abandonou o céu,
era um cordeiro, transformou-se em réu;
morre em lugar do imundo Barrabás.

E vi, então, a própria natureza
mergulhar em trevas, enquanto Jesus,
clamando: “Está consumado”,
morria, para que eu fosse libertado,
sobre uma cruz – minha própria cruz...

Assim cantaria Barrabás o seu poema,
Se a História o quisesse contar.
E tu, que tens ouvido há tanto tempo,
porém não tens crido,
que o próprio Deus morreu em seu lugar?

Chamas maus os que mataram o Cristo;
mas podes tu viver em paz?
Mataram a Cristo os teus desatinos.
És também um louco assassino: 
- Diante de Deus tu és Barrabás.

Uma História Para Ser Contada – de Myrtes Mathias

Dolorosamente só, Ele sobe o Calvário,
Levando nos ombros o peso do mundo e no corpo ferido a tragédia da humanidade.
Onde estão os amigos que prometeram segui-lO até o fim?
Onde está a glória que partilhava com o Pai antes de Nascer?
A expectativa do abandono total leva-O a tombar sob a cruz de madeira
Que os homens podem ver, pequena e insignificante,
Diante daquela outra que Ele leva no coração.
Um pouco mais, e Ele clamará: “Eloí, Eloí, Lama Sabactâni!”
E o céu continuará mudo e pesado como um teto de chumbo.
Quando sua cabeça pender sobre o peito, os espinhos da irônica coroa
Ferindo uma carne que já não sente,
O véu do templo, e do coração dos homens, se rasgará,
Para que haja o reencontro entre os homens e Deus.
Quando sua alma sofrida deixar por um pouco de tempo
O seu ferido corpo de homem, os túmulos se abrirão, para que saiam os mortos,
E os céus, para receber todo aquele que O invocar.

Essa História de amor e de entrega a todo mundo precisa ser contada:
Aos ricos, que vivem nas mansões,
Aos pobres, que sofrem nos sertões,
Aos peregrinos, que vagueiam pela estrada.

Àqueles que estão nas selvas
Em choças de palha e barro,
Àqueles que estão nas celas
Ou que a doença isolou.

Aos que estão sendo levados
Para o abismo e para a morte
Porque a História que redime
Nenhum salvo lhe contou.

Tua indiferença diante deste quadro,
Levará milhões a se perderem;
Só se salvarão se O invocarem,
Só O invocarão se O conhecerem,
Só conhecerão quando contares
A bendita História da esperança
Que traz a certeza ao coração do homem
E faz nascer um hino nos lábios da criança.

Mas, se isto não basta, olha para cima,
Ouve a voz do alto, que apela assim:
“Morri, morri na cruz por ti.
Que fazes tu por Mim?”.

Responde:
Eis aqui meus bens e minha vida,
Transforma-os, senhor meu, em um raio de luz
Que ilumine o meu povo, o povo brasileiro,
Fazendo com que a terra do cruzeiro
Se torne reino dAquele que morreu na cruz.


Dia das Mães – de Giuseppe Ghiaroni

(Não sei contar as vezes que declamei este poema de Ghiarone, por ocasião do Dia das Mães nas igrejas)

Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois… perder.
Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-lo

Assim parti, e me abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires e expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar:”Sou eu!”

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tade agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graçs, diz:”Meu filho!”, e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me transfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que , nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade!
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!

UM POUQUINHO SOBRE O AUTOR:

Mineiro de Paraíba do Sul, Giuseppe Ghiaroni, poeta e jornalista, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na redação do jornal A Noite desenvolvendo intensa atividade. Seus poemas lidos na Rádio Nacional entraram para a história do Brasil! Dentre suas Obras publicadas e mais conhecidas, ressaltam-se: O Dia da Existência, seu primeiro livro, de 1941,  A Graça de Deus, de 1945 e a Canção do Vagabundo, de 1948. Em 1997 publica A Máquina de Escrever, obra lançada inclusive no Programa do Jô! Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/ghiaroni-poeta.htm


O Grande Presente – de Myrtes Mathias

“… porque um menino se nos deu.”

Senhor,
Lembro-me daquela noite em Belém quando chegaste,
Frágil criança envolta em panos
Nem um sapatinho de lã
Nem mesmo uma camisolinha sem mangas
Santo exemplo
Sagrado mistério
Doce milagre
Toda a Onipotência
Toda a Eternidade
Aprisionadas num corpo de criança
De uma criança envolta em panos
E hoje, quem não tem vinho?
Não tem castanha?
Não tem Natal?!
O que foi feito do Grande Presente?
No teu Natal, Senhor

Ensina-me a palavra certa
Para repeti-la aos homens cansados
Às mulheres tristes,
Às crianças sem amor.
Leva-me aos hospitais,
Para dizer que tens nas mãos a maior das cicatrizes,
Porque é a ferida de toda a humanidade;

Às mulheres sem nome, para dizer que não as condenas;
Aos encarcerado, para dizer que és o Grande advogado;
Aos pobres, para dizer e proclamar que nasceste em uma estrebaria.
É teu Natal! Criança de Belém!
É teu Natal!

Que haja um sorriso em cada face,
Um brilho em cada olhar
Porque a todos foi oferecido o Grande Presente,
O Supremo Presente,
Que és tu mesmo, nascendo em cada coração!


Morrerei esta Noite – de Mário Barreto França

(Obs: Esta foi a maior poesia que eu já declamei na minha vida – Liliana Viana)

A imprensa anunciou irada e com alarde:

_ “Mais um crime de morte estúpido e cobarde,
Desmerece e nodoa a civilização!…
É preciso a justiça agir com precisão!

O fato, já vulgar em nosso mundo injusto,
Se passou em Chicago: _ Um botequim um susto…
Uma estocada… um grito… um corpo inanimado…
A partilha cruel do dinheiro roubado..
Depois a fuga… o alarme… os tristes comentários…
E o silêncio, afinal, nas folhas dos diários…

Mais, passado algum tempo, é preso o criminoso.
Era um jovem de côr de semblante asqueroso.
A quem, no julgamento, o Egrégio Tribunal
Unânime aplicou a pena capital.

Agora, na prisão, Ernesto Gaither pensa
Na extensão do seu mal, no rigor da sentença,
E procura esconder no silêncio e no jogo,
O crime que lhe traz a consciência em fogo.

Um dia, u`ma mulher de sua triste raça
Notando-lhe no olhar a angústia da desgraça,
Convida-o a assistir a uma reunião,
Para prestar a Deus um culto de oração.

Ernesto esboça irônico sorriso
E, agastado, lhe diz: _ “Não perdi o juízo
A ponto de apelar a quem nem sei se atende!
Eu rejeito esse seu Deus e o seu convite, entende?!

E prosseguiu, calado, o seu jogo de cartas…

Flora Janes, no entanto, insiste: _ Antes que partas
Deste mundo, com Deus faze uma experiência!
Não procures calcar a voz da consciência !
Quando fores deitar, descrente e mau embora,
Pede que ele te acorde à noite, a qualquer hora!
Verás , Ernesto, então, que meu Deus te ouvirá.
E tuas transgressões também perdoará!”

Mesmo que procurasse esquecer a conversa,
Aquele desafio à sua alma perversa
Não pôde resistir; por isso aos céus apela:
_ “Se existe de verdade um Deus, que nesta cela
Eu seja despertado às duas e três quartos!”

De tantas discussões e, tantos jogos farto,
Em seu catre deitou-se e, em pouco ressonava…
Porém, de madrugada, ele acordou: suava…
Levantou-se inquieto… Era silêncio tudo…

Só o seu coração, num desespero mudo,
Batia fortemente; e, fora, os passos lentos
Da guarda, Ernesto ouvia; e, envolto em pensamentos confusos, perguntou, com certa timidez:
_ Guarda, que horas são?”

_ Faltam quinze para às três!”

(Responde o sentinela) e a ronda prosseguiu…

O que naquele instante o incrédulo sentiu
Só Deus compreenderia… Assim, se ajoelhou
E a clemência do Céu humílimo implorou:
_ “Senhor, agora, eu sei que és potente e divino!
Tem piedade, porém, de um mísero assassino!
Sei que sou desgraçado; entanto, a tua mão
Se estendeu para mim num gesto de perdão!…
Não mereço viver, que sou tão mau e ignavo,
Mas para te servir, eu serei teu escravo!
Sinto que, para o bem, algo de ti me induz
E me faz confiar em teu filho Jesus!”

Quando o dia surgiu risonho e ensolarado,
Mostrou-se diferente o pobre condenado.
Ele que prometera um rival justiçar,
Apenas o buscou para lhe anunciar
Que Deus o perdoara: e, por esse motivo,
Não brigaria mais nem seria nocivo…

Isso, aos olhares vis dos outros presidiários,
Em nada o justifica; antes, mais solidários
Torna-os, pelo despeito, em afirmar que Ernesto
Em cada confissão, em cada frase ou gesto,
Uma exemplar conduta estava a simular,
Para da punição da morte se livrar…

Esse juízo falso a seu respeito o fere;
Mas o golpe pior que a vida lhe desfere
Foi a declaração de seu advogado
De que a Suprema Côrte houvera rejeitado
O perdão requerido…

Embora… Estava certo de que, na hora fatal, Deus estava perto,
Bem pertinho de si, para dizer-lhe assim:
_ “Hoje mesmo, meu filho, estarás junto a mim”

Por isso, resolveu deixar u`ma mensagem,
Antes de iniciar sua última viagem:

_ “Ao leres isto, ó moço e amigo, estarei morto!…
Mas com Cristo entrarei seguro noutro porto…
Sou negro; tenho agora os meus vinte e três anos.
Condenado, a chorar meus tristes desenganos,
Tive um sonho esta noite: eu ai para o céu…
Jesus ia ao meu lado… e eu não era um réu…
Eu dava com vigor quatro passos, enquanto
Ele só dava dois.

Por que te apressas tanto?
(ele me perguntou)
_ É que estou pressuroso
De lá chegar Senhor!

E, repleto de gôzo,
De repente cheguei; e os anjos me rodearam;
E um cântico celeste, uníssono, entoaram…

Ao leres isto moço, estarei morto! Agora,
Se ouvires Deus chamar-te atende-O sem demora!
Enquanto és jovem, põe os dons que te compensam
No serviço de Mestre e será uma bênção !

O drama que eu vivi te seja claro aviso:
Quem se afasta de Deus despreza um paraíso!…
Não permitas que o vício enlace a tua vida,
Mas faze de tua alma uma luz refletida
No evangelho de amor dos feitos de Jesus;
E o teu rumo será um caminho de luz…

O preço do pecado é certamente a morte,
Porém o dom de Deus é a vida eterna e forte
Em Cristo, nosso rei e nosso Salvador !

Minha condenação foi do crime um açoite;
Afinal, morrerei no decorrer da noite!”

Perto da meia-noite, alguém foi vê-lo e ouvi-lo
Tendo um sereno olhar num rosto bem tranqüilo,
Ele pediu para ler o seu texto predileto:
_ “Pra mim o viver é Cristo ressurreto
E a morte é lucro, sim, porque de ambos os lados
Eu sinto os aguilhões terríveis dos pecados…
Eu desejo partir e estar com o meu Senhor
E com ele viver, o que é muito melhor!”

E recitou, depois o Salmos vinte e três
Que a todos pareceu mais belo, dessa vez:
E mesmo que da morte ao vale ande em perigo,
Não temo mal algum, pois tu estás comigo.”

Seus minutos finais o relógio escoava;
Fora da cela, a escolta em silêncio escutava…
Ernesto a contemplou com franco e terno olhar;
Depois disse a sorrir:

_ “Quero agora cantar
Meu hino preferido!”

E, abrindo o seu cantor,
Soltou a sua voz bonita de tenor:

“Quando Cristo sua trombeta
Lá no Céu mandar tocar;
Quando o dia mui glorioso lá romper ,
E aos remidos desta terra
Meu Jesus se incorporar
E fizer-se então chamada, lá estarei,

Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada, lá estarei”

Depois se ajoelhou e fez uma oração:

_ Ó Deus quando cheguei aqui nesta prisão,
Eu adiava tudo e a todos com arrogância,
Por me trazerem sempre em árdua vigilância;

Mas agora, Senhor, contra ninguém reclamo;
A todos já perdoei, que a tudo e a todos amo.
Ah! Consola mamãe que tanto a fiz sofrer…
E ajuda os que ofendi…Eu sei: não vou morrer,
Vou apenas sentar-me… e dormir… e sonhar…
Para no teu regaço amigo despertar…

Levaram-no, depois, à câmara da morte;
Sem ódio, à própria escolta anima, calmo e forte,
Olha o assento fatal no fundo do salão;
Deixando-se guiar, sem resistir, sentou-se;
A todos estendeu um olhar manso e doce;
A primeira descarga, a cabeça pendeu
E a Deus, serenamente, o espírito rendeu.

Assim, na nossa vida, as faltas praticadas
Nos levam da consciência ao justo tribunal
Que, em face das sanções de eternas leis sagradas,
Nos aplica também a pena capital.

Convertidos, porém, a Deus, de almas serenas,
Possa cada um de nós, na hora extrema falar:
_ “Não! Eu não vou morrer! Eu vou dormir, apenas,
E nos braços de Cristo, alegre, despertar.”


O batuque – de Joed Venturine de Souza

Poema de: Joed Venturini de Souza (Pastor e Missionário)

A noite já virou madrugada.
No silêncio desta hora mansa
Posso ouvir a batucada
Cujo ritmo meus ouvidos alcançam.

É um batuque que parece não cessar,
Noite e dia ele se faz sempre ouvir.
Leva minha alma a meditar,
Tira de meus lábios o sorrir.

Quantas vezes esquecemos a oração.
Nem lembramos que estamos em guerra.
Perdemos o ritmo da intercessão.
Mas a batucada na noite não encerra.

Quão poucas vezes falamos do Senhor.
Tão esporádico é nosso testemunhar.
Como é raro sofrermos do outro a dor
Mas o batuque pagão parece não terminar.

A nossa oferta é, quando muito, anual.
É mais sacrifício que alegre fluir:
Não ajudamos outros na senda celestial
Mas a dança do inferno não quer diminuir.

Enquanto Missões é um culto especial,
Algo apenas para às vezes lembrar,
Muitos correm risco de perdição eternal.
E o tambor do feiticeiro continua sem findar.

Se o ritmo do maligno é tão pertinaz,
Não sejamos nós menos perseverantes.
Pode o inimigo ser audaz
Sejamos então muito mais constantes.

E se o batuque da madrugada africana
Teima em não suster seu som,
Respondamos com triunfal hosana,
Levando de Cristo o precioso dom.


Tua marca em mim – de Myrthes Mathias

“Que bom descobrir, Senhor,
que esta cicatriz é Tua marca em mim.

Depois de tantos anos de amargura,
finalmente, posso agradecer-Te
por me teres feito exatamente assim.

Por ter sido formada
fora dos padrões que o mundo aprova
tive que abrir com esforço o meu caminho:
como uma planta que nasce entre pedras,
ou semente que cai entre espinhos.

Como a ostra faz com a sua ferida,
darei à minha vida
uma nova significação:
não podendo ser mensagem para
os olhos do próximo
falar-lhe-ei diretamente ao coração.

E o farei como de irmão pra irmão
a todos àqueles que é infeliz:
– Compreendo tua desilusão,
eu também tenho a minha cicatriz.

Também vaguei pela estrada da vida
para o meu problema procurando um fim;
até descobrir que o que me atormentava
era a marca de propriedade
que Deus havia colocado em mim.

Por isso quero que digas comigo
Aquela quase impossível oração:
– Obrigada, Senhor, pelas minhas fraquezas,
por tudo aquilo que me faz sofrer.
Transforma numa bênção o meu problema,
da minha tragédia tira um poema:
dá-me a graça de reconhecer
que sou apenas parte de um plano
ao qual eu devo me submeter.”


Levantai os olhos… e vede o campo – de Myrtes Mathias

Lá fora, além das paredes que te cercam
e protegem, longe do calor que te aquece
o corpo e o coração,está a grande vinha do Senhor;
crianças que perderam os pais,
mil mulheres que vendem o corpo,
milhões de jovens que procuram uma razão de ser;
povo, que é teu povo, caminhando
irremediavelmente para o abismo…
Pára. Olha. Pensa. E ouve teu desafio
na própria voz do Mestre:
“Levantai os olhos e vede…
Vai hoje trabalhar na vinha…”
Ainda é tempo de obedecer,
alcançar a vinha aqui, ali, além;
sustentando aqueles que vão,
onde estiver um deles pregando a salvação,
tu estarás, também.


Quão Formosos os pés – de Myrtes Mathias

Grandes, pequenos, bem feitos, rudes, agasalhados em ricos sapatos, metidos em velhas
sandálias, desnudos mesmo, seguem e prosseguem,
perseguem um ideal.
Por isso são úteis, belos, insubstituíveis, na cidade, nos
desertos, nas selvas.

Incansáveis, sempre alertas, humildes, bons.
Vieram do passado, subiram montanhas, desceram
cavernas, abandonaram tronos e ganharam tronos, vagaram em desertos, atravessaram rios, caminharam em fornalhas, encheram-se de feridas, marcharam para o patíbulo, cobriram-se do pó das estradas de Betânia, descansaram ao pé do poço de Jacó, escalaram o monte para o grande Sermão, subiram o Calvário, se entregaram na cruz; Pés de patriarcas, profetas, sacerdotes, apóstolos, mulheres santas, Pés de Felipe, Pedro, Madalena, Judson, Carey, Brainerd, Sundar Sing: pés de servos de Jesus, pés do próprio Cristo. Pés dos que partem levando a semente, sem se importar com pedras, espinhos, ou se e boa a terra, pés abençoados de semeador.

Que entram em prisões, hospitais, asilos, de mulheres vestidas de branco, curando o corpo,
falando de amor; da professorinha nos confins da pátria,
submissão no interior da selva, levando hinos em tupi, craô.
Que sobem ao púlpito da igreja pequenina de servos
heróicos dominados, por um só desejo, uma só paixão:
ganhar a pátria inteira para Cristo, levar a Deus cada coração.
Benditos pés formosos pés dos que anunciam a boa nova! Pára um instante, mocidade crente, vê onde teus pés te estão levando:
sobem a escada que conduz ao céu ou descem ao vale tão longe de Deus que já não ouves o Brasil clamando?
Clamando pelos formosos pés dos que anunciam paz e salvação, dos que transformam negra noite em luz, dos que
só pregam uma mensagem – a cruz, os mensageiros santos do perdão.

Medita, escolhe, mocidade crente, atende à ordem que
desce do Céu, o campo branco põe amor à prova, a seara
pronta espera a boa nova:
Torna formosos os pés que Deus te deu.


Deixa Cristo Nascer – de Myrtes Mathias

Desce a noite lenta sobre a terra,
Bela e triste, quase irreal!
Bela demais em seu sublime encanto,
triste demais para nascer um santo:
Nasce Deus no primeiro Natal.

À ordem de César, Belém regurgita,
anima a cidade o decreto real:
cheia demais está a hospedaria,
à virgem cansada resta a estrebaria:
Nela nasce Deus no primeiro Natal.

Pastores que velam na escura montanha,
ouvindo a nova do coro angelical,
deixam o rebanho, em busca da luz,
primeiros crentes, vão ver a Jesus:
Adoram a Deus no primeiro Natal.

Sábios, a espera do doce milagre,
reconhecendo a estrela divinal,
deixam o Oriente, trazendo um tesouro,
simbólica oferta: mirra, incenso, ouro:
presentes para Deus no primeiro Natal.

Homem, não maldigas tua sorte incerta,
Não tornes vã a noite sem igual.
Que importa Jesus tenha nascido?
Que importa Ele tenha sofrido?
Se ele não nascer em ti neste Natal?

Deixa o orgulho, a indiferença, o ódio,
sê humilde e crente, abandona o mal.
Não faças do teu coração hospedaria,
onde lugar para Cristo não havia:
dá lugar a Deus neste Natal.

Aceita a história simples da estrebaria,
a estrela linda, o coro angelical.
Entrega teu coração em mística oferta.
Em tua alma haverá paz, no céu haverá festa,
se Cristo nascer em ti neste Natal!