Watchman Nee

Levantar Cedo por Watchman Nee‏

(Colaboração: Eliana Ovalle)

I – A melhor hora do dia é de manhã cedo

 A que horas o cristão deve se levantar a cada dia?
 Certa vez uma irmã colocou muito bem essa questão: “Quando uma pessoa ama o Senhor pode ser julgada basicamente pela maneira como ela escolhe entre a cama e o Senhor. Você ama a cama ou ao Senhor? Se ama mais a cama, vai dormir um pouco mais. Se ama mais ao Senhor, levantará um pouco mais cedo”. Ela falou essas palavras há mais de 30 anos, mais ainda são atuais para nós hoje. Devemos escolher entre o amor pela cama e o amor pelo Senhor. Quanto mais amamos ao Senhor, mais cedo levantaremos.

 Como cristãos, devemos levantar cedo, porque cedo pela manhã é o melhor horário para encontrar o Senhor. À exceção dos enfermos, todos os irmãos e irmãs devem levantar cedo. Na verdade muitas doenças não são doenças. Tornam-se doenças porque as pessoas amam demais a si mesmas. Excetuando-se aqueles a quem o médico recomendou dormirem mais, todos devem levantar cedo. Não queremos ser extremistas, recomendamos que os irmãos enfermos durmam mais. Contudo, os que tem saúde devem levantar o mais cedo possível. O melhor horário para encontrar o Senhor, contatá-Lo e ter comunhão com ele é de manhã cedo. O Maná era recolhido antes do Sol nascer (Êx 16:14-21). Qualquer um que queira comer o alimento divino, deve levantar cedo. Quando o sol esquenta, o maná derrete e desaparece. Se quisermos receber nutrição e edificação espirituais e ter comunhão e suprimento espirituais, precisamos levantar cedo. Se levantarmos tarde, o maná terá derretido. Cedo pela manhã é o tempo ideal quando Deus dispensa o alimento espiritual e santa comunhão para seus filhos. Quem chega atrasado, não recolhe nada. Muitos filhos de Deus têm vida doentia, não porque tenham problemas espirituais, mas por que levantaram tarde demais. Muitos filhos de Deus não tem problemas com a consagração, zelo ou amor, mas não conseguem ter a vida cristã normal porque levantaram muito tarde. Não pense que isso seja algo sem importância. Não pense que não tem nada a ver com a espiritualidade. Muitas pessoas não são Espirituais porque se levantaram tarde. Muitos têm sido cristãos por anos, porém não têm vida cristã adequada porque levantam tarde demais. Não conhecemos ninguém que saiba orar, contudo levante tarde. Também não conhecemos ninguém que tenha íntima comunhão com Deus, contudo levante tarde. Todos aqueles que conhecem a Deus levantam cedo para ter comunhão com Ele.

Provérbios 26:14 diz: “Como a porta se revolve nos seus gonzos, assim, o preguiçoso, no seu leito.” Aqui diz que um preguiçoso na cama é como uma porta que se revolve nos seus gonzos, isto é, dobradiças. O preguiçoso fica se revolvendo na cama; vira para um lado, depois para o outro. Para qualquer lado que se vire, ele ainda está na cama. Muitas pessoas não conseguem se separar da cama. Ao virar-se de um lado para o outro, eles a amam. Quando se viram para a esquerda, estão na cama, quando se viram para a direita, ainda estão na cama. Adoram dormir e não conseguem se separar da cama. Muitos simplesmente querem dormir um pouco mais, e não conseguem sair da cama. Se queremos aprender a servir a Deus e sermos bons cristãos, precisamos levantar cedo todos os dias.
Aqueles que se levantam cedo colhem muitos benefícios espirituais. As orações em todos os horários do dia não se comparam com as orações de manhã cedo. A leitura da bíblia em outros horários do dia não se compara com a leitura cedo pela manhã. A comunhão com o Senhor em outros horários não se compara com aquela de manhã cedo. Cedo pela manhã é o melhor período do dia. Precisamos despender o melhor período do dia, de manhãzinha, diante do Senhor, em vez de gastá-lo em outras coisas. Alguns cristãos gastam o dia inteiro em outros assuntos e se ajoelham para ler a bíblia e orar somente à noite, quando já estão quase indo dormir. Não é de admirar que sejam ineficazes na leitura bíblica, nas orações e comunhão com o Senhor. Acordam muito tarde de manhã. Logo que cremos no Senhor, devemos separar esse horário para ter comunhão com Deus e contatá-Lo.

II – Exemplos de se levantar cedo

            Na bíblia vemos os servos de Deus se levantando cedo pela manhã. Vamos considerar os exemplos:

  1. Abraão – Gn 19:27; 21:14; 22:3.
  2. Jacó – Gn 28:18.
  3. Moisés – Êx 8:20; 9:13; 24:4; 34:4.
  4. Josué – Js 3:1; 6:12; 7:16; 8:12.
  5. Gideão – Jz 6:38.
  6. Ana – 1 Sm 1:19.
  7. Samuel – 1 Sm 15:12.
  8. Davi – 1 Sm 17:20.
  9. Jó – Jó 1:5.
  10. Maria – Lc 24:22; Mc 16:9; Jo 20:1.
  11. Os Apóstolos – At 5:21.

Todos esses versículos nos mostram que os servos de Deus tinham o hábito de ter contato com Deus cedo pela manhã. Todos tinham costume de acordar de manhã cedo e ter comunhão com Deus. Levantavam de madrugada para fazer muitas coisas relacionadas aos assuntos de Deus. Também levantavam cedo para se consagrar. Embora não haja nenhum mandamento na bíblia que nos diga que levantemos cedo, há exemplos suficientes na bíblia a nos mostrar que todos os servos fiéis de Deus levantavam cedo. O próprio Senhor Jesus o fazia. Ele levantou alta madrugada, enquanto ainda era noite, e foi a um lugar deserto para orar (Mc 1:35). Quando foi designar os doze apóstolos, chamou-se a Si ao amanhecer (Lc 6:13). Se Ele ainda tinha de levantar cedo para fazer essas coisas quanto mais a nós.

Qualquer irmão ou irmã que deseja seguir o Senhor, nunca deve pensar que faça pouca diferença levantar uma hora mais cedo. Você deve perceber que a leitura bíblica se tornará ineficaz, se levantar uma hora mais tarde. Da mesma forma, a oração se torna ineficaz, se levantar uma hora mais tarde. Embora possa gastar o mesmo tempo para ler a Bíblia, levantar uma hora mais cedo produzirá resultados bem diferentes. Levantar cedo atrai grande benção. Esperamos que você não perca a benção de levantar cedo desde o início da vida cristã. Perguntaram pelo menos cinquenta vezes a um irmão nos seus três primeiros anos da vida cristã: “A que horas você levantou hoje de manhã?” Levantar cedo é grande benção. Aqueles que aprenderam a fazê-lo sabem a importância disso. Se você não se levantar cedo pela manhã, viverá em pobreza espiritual. Levantar tarde produz muita perda. Muitas coisas espirituais são perdidas por levantar tarde. 
Vimos muitos exemplos na Bíblia. E os servos de Deus que não são mencionados na Bíblia como George Müller, John Wesley e muitos outros servos famosos de Deus? Eles também levantaram cedo. Podemos dizer que quase todos aqueles que conhecemos ou sobre os quais lemos em livros, que tiveram alguma utilidade nas mãos de Deus, valorizavam essa questão de levantar cedo. Eles a chamam de “vigília matinal”. O próprio termo vigília matinal nos mostra que ela ocorre de manhã cedo. Você já ouviu falar de alguém que faz vigília quando o sol já nasceu? Nunca! Faz-se vigília matinal bem cedo pela manhã. Esse é um bom hábito, e nós cristãos devemos cultivá-lo. Os filhos de Deus não devem ser pessoas relaxadas. A igreja tem praticado isso por anos. Devemos manter esse bom hábito de nos encontrar com Deus de manhã cedo. O termo “vigília matinal” não existe na bíblia. Podemos usar outro nome, mas independentemente do nome que dermos, encontrar-se com Deus de manhã cedo é crucial.

III – O que fazer de manhã cedo

Não apenas levantamos cedo. Deve haver exercício e conteúdo espirituais naquilo que fizermos. Aqui há algumas coisas que podemos fazer de manhã cedo:

1, Ter comunhão com Deus

Cântico dos Cânticos 7:12 nos mostra que de manhã cedo é o melhor tempo para ter comunhão com o Senhor. Isso significa abrir nosso espírito e mente para Deus e permitir que Ele nos ilumine, fale, impressione e toque (Sl 119:105, 147). Durante esse tempo nosso coração se aproxima de Deus e permitimos que Ele se aproxime de nosso coração. Devemos levantar cedo para permanecer diante do Senhor, meditar, ser guiados e impressionados por Deus, aprender a tocá-Lo e dar-Lhe oportunidade de nos falar.

2. Louvar e Cantar

De manhã cedo deve haver louvor e canto. Esse é o melhor horário para cantar louvores a Deus. Quando rendemos o mais alto louvor a Deus, nosso Espírito sobe ao pico mais alto.

3. Ler a Bíblia

De manhãzinha é o horário para colher o maná (que é Cristo). Que significa comer Maná? Significa desfrutar de Cristo, a palavra de Deus e a Sua verdade de manhã cedo, todos os dias. Após comer o maná, teremos forças para andar no deserto. Cedo pela manhã é o tempo para colher o maná. Você não estará espiritualmente alimentado nem satisfeito, se gastar o início do dia em outras coisas.
Precisamos ter duas Bíblias, uma com marcas e anotações para usar à tarde, e a outra sem nada anotado para “comer o maná” cedo pela manhã. Nesse momento não leia muito e não pegue muitas porções da palavra. Mas, leia apenas um trecho, cuidadosamente, sempre mesclando a leitura com incessante comunhão com Deus e canto. Isso não significa que deva primeiro ter comunhão com Deus, segundo, louvar e então por último ler a bíblia. Você deve mesclar todas essas coisas. Ao mesmo tempo também deve orar. Venha a presença de Deus e abra sua palavra. Durante a leitura, você pode ser lavado a confessar os pecados. Ao ler certas porções, pode ser tocado pela graça para oferecer ações de graça. Também pode fazer orações a respeito daquilo que leu na palavra. Você pode dizer: “Senhor, isso é verdadeiramente o que preciso. Esse trecho, esse versículo, essa palavra expõe a minha carência. Senhor, preenche essa minha lacuna”. Quando encontrar uma promessa, você pode dizer. “Senhor, eu creio nessa promessa”. Quando encontrar a graça pode dizer: “Senhor, tomo essa graça para mim” Também pode interceder. Enquanto estiver lendo, você pode lembrar-se da condição daqueles que não atendem aos requisitos daquela passagem. Você não deve acusá-los nem criticar. Mas, deve orar: “Deus, cumpra essa palavra em mim. Cumpra também essa palavra no meu irmão”. Você pode confessar os seus pecados e os dos outros. Pode dar graças por você e pelos outros. A bíblia pela manhã não deve ser muito longa. Dois, três, quatro ou cinco versículos são suficientes. Você pode permanecer neles por uma hora. Ao lê-los palavra por palavra, orar sobre eles e ter comunhão com Deus através deles, você será suprido.
Tanto no Antigo como no novo Testamento havia pessoas que tinham comunhão com Deus dessa forma. Elas conheciam a Deus e tinham comunhão com Ele. A sua comunhão com Deus tornou-se parte da sua vida.
Nos Salmos, Davi permutou livremente os pronomes tu e Ele. Em dado nome estava falando ao homem, no momento seguinte, orando a Deus. No mesmo Salmo dizia algumas frases para o homem e então, algo para Deus. Por um lado, falava ao homem, por outro, falava a Deus. Os Salmos nos mostram que Davi era uma pessoa em constante comunhão com Deus.
Enquanto Neemias estava trabalhando, falava algumas palavras e então fazia breve oração. Quando o rei lhe perguntava algo, ele falava primeiro com o rei e depois com o Senhor. Ele misturava o trabalho com oração. Não separava o trabalho da oração.
Paulo escreveu o livro de Romanos aos que viviam em Roma. Porém, mais de uma vez ele voltou o seu falar para o Senhor. Algumas vezes parecia ter esquecido do que estava escrevendo aos Romanos. Parecia que estava falando com Deus. Podemos achar vários exemplos disso nas epistolas de Paulo. Em determinado instante ele se voltava e falava de Deus.
Na autobiografia de Madame Guyon percebe-se uma característica peculiar. Enquanto a maioria das autobiografias são escritas para o homem, na sua autobiografia, Madame Guyon fala ao homem num instante e a Deus no instante seguinte. Num momento está a falar a LaCombe, (que foi quem solicitou que escrevesse a autobiografia), e no momento seguinte está a falar a Deus. Isso é comunhão. Não se sabe onde começa a comunhão com Deus e onde termina. Comunhão não significa colocar as outras coisas de lado para orar. Também não significa orar primeiro e então fazer as coisas. É fazer ambos simultaneamente. Portanto essa hora matutina de colher o maná, você deve aprender a misturar a oração com a palavra de Deus. Deve aprender a misturar louvor e comunhão com a palavra de Deus. Em dado momento pode estar na Terra, mais no momento seguinte está nos céus. Em dado momento seguinte está nos céus. Em dado momento pode ser estar em si mesmo, mas no momento seguinte estáem Deus. Se mantiver essa prática diante de Deus todas as manhãs, após algum tempo você estará cheio de Deus e a palavra de Deus habitará ricamenteem você. Tal leitura da palavra de Deus, tal colher do maná, são-nos indispensáveis. Muitos irmãos e irmãs são fracos e incapazes de caminhar no deserto. Precisamos perguntar-lhes: “Você comeu alguma coisa?” Eles não conseguem caminhar porque não comeram o suficiente. O maná é colhido de madrugada. É por isso que precisamos levantar um pouco mais cedo. Não obteremos nenhum maná se chegarmos atrasados. Precisamos levantar cedo pela manhã para laborar na palavra de Deus.

4. Orar

Devemos ter comunhão, louvar e colher o maná de madrugada. Também devemos orar ao Senhor. Salmo 63:1 (VRC) e 78:34 (VRC) ambos dizem que devemos buscar o Senhor cedo. A oração mencionada no parágrafo anterior é uma oração de entremescla. Mas a que estamos falando aqui é mais específica. Após ter comunhão, louvar e comer o maná, temos força e podemos apresentar todas as coisas em oração diante de Deus. Oração certamente requer muita força. Primeiro precisamos aproximar-nos de Deus de madrugada e ser alimentados. Então podemos usar meia hora, ou quinze minutos para orar por algumas coisas urgentes. Podemos orar por nós mesmos, pela igreja ou pelo mundo. Naturalmente, também podemos orar à tarde ou à noite. Mas se aproveitarmos o poder que acabamos de ganhar de madrugada através da comunhão com Deus e de colher o maná, recebemos mais sustentação na oração.

Todo cristão deve fazer essas quatro coisas com dedicação diante do Senhor e de manhãzinha: ter comunhão com Ele, louvá-Lo, ler a bíblia e orar. A jornada no dia manifesta se fizermos ou não essas quatros coisas pela manhã. Müller atesta que o quanto era alimentado pelo Senhor de manhã, determinava a sua condição espiritual durante todo o dia. A sua condição espiritual naquele dia dependia de quanto ele se alimentara do Senhor pela manhã. Muitos cristãos se sentem fracos durante o dia porque as manhãs são mal aproveitadas. Naturalmente, há aqueles que estão tão adiantados na trajetória espiritual que conseguem experimentar a total separação entre o Espírito e a Alma. O seu homem exterior está quebrantado e eles não são tão facilmente abalados por nada. Mas isso é outra questão. Os recém-convertidos devem aprender a levantar cedo. Uma vez que se tornem frouxos nisso, ficarão frouxos em tudo e tudo dará errado. Há grande diferença entre nutrir-se e não nutrir-se pela manhã.
Certa vez um músico famoso disse: “Se eu deixar de praticar por um dia eu o notarei. Se deixar de praticar por dois dias, meus amigos o notarão. Se deixar de praticar por três dias, o meu público notará”. Se isso acontece quanto a praticar música, muito mais na lição espiritual de levantar cedo. Sem uma boa vigília matinal diante de Deus, nós o percebemos. E aqueles que são experimentados no Senhor quando nos contatarem também o perceberão. Perceberão que não tocamos na fonte espiritual. Desde o primeiro dia, os recém-convertidos devem disciplinar-se rigorosamente. Cada manhã devem levantar-se cedo para exercitar-se dessa maneira diante do Senhor.

 IV – A prática de levantar cedo
 Finalmente, devemos falar um pouco sobre como colocar isso em prática. Como colocar isso em prática? Precisamos dar atenção a algumas coisas.
Todos os que levantam cedo devem ter o hábito de dormir cedo. Ninguém consegue dormir tarde e levantar cedo. Isso é como queimar uma vela dos dois lados.
Não coloque um padrão alto demais. Alguns querem levantar as três ou quatro horas da manhã. Quando descobrem que não conseguem, desistem após alguns dias. É melhor ser moderado. Cinco ou seis horas são bons horários para levantar. Levante um pouco antes do sol nascer, ou quando está nascendo. Levante sempre próximo ao nascer do sol. Se você tentar levantar muito cedo, sua prática pode não durar por muito tempo. Um padrão alto demais somente resultará em consciência condenada. Alguns colocam um padrão elevado demais para si mesmo. Acabam tendo problemas com a família ou o trabalho. Quando ficam hospedados na casa de alguém, têm problemas com os hospedeiros. Isso não é proveitoso. Não coloque um padrão elevado demais para si mesmo. Considere cuidadosamente diante do Senhor qual é o horário adequado para levantar. Leve em conta tanto as limitações físicas como o ambiente. Assim defina o padrão e mantenha-o.
No início você vai encontrar dificuldade. No primeiro e no segundo dia é fácil. Mas, no terceiro é difícil. Nos primeiros dias você vai achar fácil. Mas, após alguns dias, amará tanto a cama que não vai mais querer sair dela. Isso acontece principalmente no inverno. Leva longo tempo até que adquiramos novo hábito. Talvez você esteja acostumado a levantar tarde e sua mente esteja acostumada a isso. Mas, se levantar cedo algumas vezes, gradualmente a sua mente irá a se acostumar a isso. Após praticá-lo por alguns dias, você não vai querer voltar mais a dormir, mesmo se a mente lhe diga o contrário. No início você terá de força-se um pouco para levantar cedo. Antes que o hábito seja formado, você precisa pedir graça a Deus. Continue a pedir graça até que o hábito se forme. Desista da cama diariamente para levantar cedo. No fim vai levantar cedo espontaneamente. Você precisa formar esse hábito diante de Deus. Não pode perder a graça do poder matinal.
Uma pessoa saudável não necessita mais do que oito horas de sono. Não pense que você seja exceção. Não pense que levantar cedo irá fazer mal á saúde. Pode ser que a sua ansiedade é que esteja afetando a sua saúde. Muitas pessoas amam demais a si mesmas e se preocupam a ponto de ficar doente. Você pode precisar de dez ou doze horas de sono se o médico disser que você está doente. Mas, seis a oito horas de sono são suficientes para uma pessoa normal. Porém não leve ao extremo. Mantenha pelo menos seis a oito horas de sono. Não esperamos que aqueles que estão doentes levantem cedo. Se você está doente, não há problema em ficar na cama e ler a Bíblia ali. Mas, aqueles que não têm recomendação médica para ficar na cama e não estão verdadeiramente doentes, devem levantar cedo.
Esperamos que os irmãos que têm maturidade e encargo, diante do Senhor mantenham essa prática. A igreja deve ajudar os preguiçosos para que avancem. Eles devem ser um pouco chacoalhados. Devemos encorajar. Devemos encorajar os recém convertidos a agarrar essa bênção. Aproveite toda a oportunidade para perguntar aos novos: “A que horas você se levanta?” Após alguns dias devem perguntar novamente:  “A que horas você se levantou hoje cedo?” Esse tipo de lembrança deve prosseguir  pelo menos por um ano, no início da vida cristã da pessoa. Após um ano, talvez você ainda precise perguntar: “A que horas você se levanta agora?” Pergunte isso aos recém-convertidos sempre que os vê. Você deve ir a eles e ajudá-los nessa questão. Mas, se nós mesmos não aprendermos diante do Senhor, será difícil fazer isso com os outros. É por isso que nós, primeiramente, precisamos aprender bem essa lição.
Levantar cedo deve ser o primeiro hábito de um cristão, antes de todos os outros. Dar graças antes das refeições é um hábito. Reunir-se no domingo, também. Levantar cedo é um hábito ainda mais essencial. Um recém-convertido deve cultivá-lo. É lamentável que alguns tenham sido cristãos por anos, mas, nunca desfrutaram a benção de levantar cedo. Nunca desfrutaram de tal graça. Se quisermos experimentar essa graça, precisamos aprender bem a lição. Se mais irmãos e irmãs se ajuntarem para aprender essa lição, e se todos se levantarem cedo pela manhã, a igreja crescerá. Quando um irmão recebe mais luz, toda a igreja ganha mais brilho. Quando todos receberem um pouco mais de luz cada dia, a igreja como um todo se tornará mais rica. A igreja é pobre hoje porque pouquíssimos estão recebendo suprimento da Cabeça. Se todos receberem algo da Cabeça, embora possa parecer pouco, o somatório de todas as pequenas porções fará com que o todo seja muito rico.
Não desejamos ver apenas uma minoria trabalhando na igreja. Esperamos ver todos os membros se levantando diante do Senhor. Esperamos ver toda a igreja se levantando para receber as riquezas e a graça de Deus. O que um membro receber da Cabeça, se torna benefício para todo o Corpo. Se cada irmão ou irmã tomar esse caminho, haverá muitos recipientes diante de Deus, e seremos a cada dia mais ricos. Esperamos que você não considere insignificante levantar cedo. Se todos aprendermos a levantar cedo e se todos mantivermos esse hábito, teremos um futuro espiritual brilhante pela frente.


Os Canais de Vida

Já mencionamos como nossa obra deve conceder vida às pessoas. Mas em nós mesmos não temos a vida para dar, para que as pessoas possam viver e ser alimentadas. Pois não somos a fonte, simplesmente os canais da vida. A vida de Deus flui de nós e através de nós. Uma vez que somos canais, não devemos deixar que nada nos bloqueie para que a vida de Cristo passe através de nós. A obra da cruz é desobstruir-nos — livrar-nos de tudo o que pertence a Adão e à ordem natural para que os outros possam receber a vida do Espírito Santo. Ao sermos cheios com o Espírito Santo, nosso espírito pode levar a cruz de Cristo continuamente. Como resultado, nossa vida torna-se a vida da cruz (explicaremos isto melhor mais adiante). E uma vez cheios do Espírito Santo e possuindo a vida de cruz, seremos usados pelo Espírito de Deus a fim de fazer emanar de nós a vida de cruz para os que estão ao nosso redor. Pois se realmente estivermos cheios do Espírito devido à obra mais profunda da cruz em nós, espontaneamente propagaremos vida em nossa conversa — quer seja pública ou particular — de modo a enriquecer aqueles com os quais estamos em contato. Isto não exige nenhum esforço próprio nem fabricação própria, e deve ser algo muito natural. E isso cumpre o que o Senhor Jesus declara em João 7:38: “Quem crê em mim… do seu interior fluirão rios de água viva.”

Este versículo contém vários pensamentos. “Do seu interior” ou “do seu ventre”, significa que primeiro o ventre seja esvaziado mediante a perfeita operação da cruz. Também implica que o ventre deve estar cheio da água viva do Espírito Santo. A vida que a pessoa recebe não é somente para sua própria necessidade. É tão abundante e completa que flui como rios de água viva para suprir a necessidade dos outros.
Precisamos dar atenção especial à palavra “fluir” usada aqui. Tal termo não sugere o uso de táticas de oratória, certa tonalidade de voz, algum princípio psicológico profundo, eloqüên¬cia, argumento ou aprendizagem. Embora tudo isto possa, à vezes, ser útil, em si mesmos não são nem a água viva nem o mecanismo pelo qual a água viva flui. “Fluir” sugere algo mais natu¬ral; não requer esforço humano algum. Não é preciso depender da eloqüência ou do argumen¬to. Ao proclamarmos fielmente a palavra da cruz de Jesus, as pessoas receberão a vida que não possuem. A vida e o poder do Espírito Santo parecem fluir naturalmente através de nosso espírito. Doutra forma, não importa quão arden¬temente pregamos, nosso auditório ouvirá passi¬vamente. Embora às vezes as pessoas parecem prestar atenção e compreender e se emocionar, o que dizemos pode somente extrair elogio de suas bocas sem dar-lhes a vida e o poder a fim de praticar o que ouvem. Que possamos ser canais da vida de Deus hoje.
A fim de sermos canais devemos ter a expe¬riência, ou o Espírito Santo não operará conosco; pois a obra que realizamos depois de receber o Espírito Santo tem em si a natureza do teste¬munho (ver Lucas 24:48,49). De fato, todas as nossas obras dão testemunho do Senhor. O que testifica não pode testificar do que não viu. Mas a palavra do ouvinte não é prova suficiente. Ninguém pode testemunhar sem experiência pessoal. Mais claramente, o que não tem expe¬riência do que proclama é testemunha falsa! E por causa disso o Espírito Santo recusa-se a operar mediante tais indivíduos.
Outra coisa que devemos saber é que quando o Espírito Santo opera (e da mesma forma, quando o espírito do maligno opera), é preciso que o homem proporcione saída para o poder. Caso não experimentemos o que proclamamos, o Espírito Santo não nos pode usar como seu canal a fim de transmitir sua vida ao coração das pessoas.
Assim, possa a cruz que proclamamos tam¬bém crucificar-nos! Que possamos levar a cruz que pregamos! Que primeiro recebamos a vida que pretendemos comunicar aos outros! Que a cruz que proclamamos seja a que experimenta¬mos diariamente em nossa vida! Pois se nossa mensagem há de produzir efeito eterno, primei¬ro deve transformar-se em alimento de nossa alma. Mediante as tribulações do viver diário é impressa com fogo em nosso próprio ser para que levemos a marca da cruz em tudo o que fazemos. Só aqueles que levam, impressas em seu corpo, as marcas do Senhor Jesus (Gálatas 6:17), podem proclamá-lo. Oh, permita-me lembrá-lo que a idéia ou conhecimento repentinos obtidos através de livros e do estudo podem agradar ao auditório temporariamente, mas não deixará nenhuma impressão permanente. Se nossa obra é só para a apreciação humana, então já cumprimos nosso dever apresentando mate¬riais de fontes mentais e emocionais. Felizmen¬te, entretanto, nossa obra não possui tal propósi¬to!

Autor Watchaman Nee
LIVRO: O Mensageiro da Cruz


Vida

Não podemos dar o que não possuímos. Se tudo o que possuímos é pensamento, só podemos dar pensamentos. Se em nossa vida não possuirmos a experiência da co-morte com Cristo a fim de vencer o pecado e o ego, nem a experiência de tomar a cruz e seguir o Senhor e com ele sofrer; se nosso conhecimento da palavra da cruz é conseguido de livros e das pessoas, conhecimento que nós mesmos não experimentamos, então é certo que não podemos conceder vida; tudo o que podemos fazer é instilar a idéia da vida de cruz na mente das pessoas. Somente quando nós mesmos somos transformados pela cruz e recebemos seu espírito como também sua vida somos capazes de conceder a cruz às outras pessoas.

A cruz deve fazer sua obra mais profunda em nossa vida diária para que possamos ter experiências reais de vitória e também de sofrimentos da cruz. Então, ao proclamarmos a mensagem nossa vida propagar-se-á em nossas palavras, e o Espírito Santo pode fazer fluir sua vida através de nossa vida a fim de saciar a aridez das vidas dos que nos ouvem.

Pensamento, palavra, eloquência e argumento humanos só estimulam a alma humana, pois estes só alcançam o intelecto. Meramente excitam a emoção, a mente e a vontade do homem. A vida, entretanto, pode alcançar o espírito do homem; todas as obras do Espírito Santo são realizadas em nosso espírito — isto é, em nosso homem interior (veja Romanos 8:16; Efésios 3:16). À medida que nós, em nossa experiência espiritual, deixarmos fluir nossa vida no espírito, o Espírito Santo enviará sua vida aos espíritos dos outros e fará com que recebam a vida regenerada, a vida mais abundante.

É vão tentarmos salvar pecadores ou edificarmos os santos usando psicologia, eloquência e teoria. Embora a aparência exterior do que dizemos possa ser bem atraente, sabemos que o Espírito Santo não opera conosco. Se o Espírito Santo não emprestar sua autoridade e poder às nossas palavras, os ouvintes não sofrerão mudança alguma em suas vidas. Embora possam, às vezes, tomar uma decisão ou mudar sua vontade, tudo não passa de mera excitação da alma. Por não existir vida em nossas palavras, não há poder a fim de fazer com que os outros recebam o que não possuímos. Ter vida é ter poder. A menos que permitamos que o Espírito Santo emane de nossa vida a fim de alcançar o espírito do homem, as pessoas não podem receber a vida do Espírito Santo e não têm poder algum para pôr em prática o que pregamos. O que buscamos, portanto, não é persuasão por meio de palavras, mas a vida e o poder do Espírito Santo.

A vida que mencionamos aqui refere-se à Palavra de Deus que experimentamos em nossa caminhada ou à mensagem que experimentamos antes de proclamá-la. A vida de cruz é a vida do Senhor Jesus. Devemos conhecer nossa mensagem pela experiência. O ensino que conhecemos é somente ensino até que permitamos que opere em nossa vida de modo que o ensino que conhecemos se torne parte de nossa experiência e elemento integral de nossa caminhada diária. Então o ensino já não é meramente ensino mas a própria essência de nossa vida — assim como o elemento que comemos tornou-se carne de nossa carne e osso de nossos ossos. Tornamo-nos o ensinamento vivo e a palavra viva; e o que pregamos não é mais simplesmente uma idéia, mas nossa vida real. Este é o significado de “praticantes da palavra” no sentido bíblico.

Muitas vezes compreendemos mal a palavra “fazer”. Achamos que significa que depois de ouvirmos e conhecermos a palavra de Deus devemos tentar o melhor que podemos a fim de fazer o que ouvimos e conhecemos. Mas não é esse o significado de “fazer” na Bíblia. É verdade que precisamos desejar fazer o que ouvimos. Entretanto, o “fazer” das Escrituras não é operar mediante nossa própria força, antes, é permitir que o Espírito Santo viva mediante nós a palavra do Senhor que conhecemos. E uma qualidade de vida, não simplesmente um tipo de obras. Quando tivermos a vida, mui naturalmente teremos as obras.

Mas produzir algumas obras não pode ser considerado cumprir o “fazer” da Bíblia. Devemos exercitar nossa vontade a fim de cooperar com o Espírito Santo de modo que possamos viver o que conhecemos, assim dando vida aos outros.

Ao olharmos para o Senhor Jesus, aprenderemos a lição. “…assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna” ( João 3:14b,15). “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo. Isto dizia, significando de que gênero de morte estava para morrer” (João 12:32, 33). É preciso que o Senhor Jesus seja crucificado antes de atrair todos os homens a si mesmo para que recebam a vida espiritual. Ele mesmo deve morrer primeiro, tendo a experiência da cruz em operação nele, tanto de dentro como de fora, de modo que ele se torna em realidade o crucificado. E assim terá ele o poder de atrair todos a si mesmo.

Ora, discípulo algum pode ser maior do que seu mestre. Se nosso Senhor deve ser levantado e crucificado para que todos sejam a ele atraídos, não devemos nós, que levantamos o Cristo crucificado, também ser levantados e crucificados de modo a atrair todos a ele? O Senhor Jesus foi levantado na cruz a fim de dar vida espiritual aos homens; da mesma forma, se desejamos fazer com que as pessoas tenham vida espiritual, nós também devemos ser levantados na cruz para que o Espírito Santo possa fazer com que sua vida flua mediante nós. Uma vez que a fonte da vida procede da cruz, não devem os canais de vida também outorgar vida mediante a cruz?

Continue esta leitura na mensagem OS CANAIS DE VIDA
Autor Watchaman Nee
LIVRO: O Mensageiro da Cruz


Motivo do fracasso das mensagens da cruz

Homens e mulheres que não foram crucificados não podem proclamar a palavra da cruz e são indignos de fazê-lo. A cruz que pregamos aos outros deve, primeiro, crucificar-nos. A palavra que pregamos deve, primeiro, queimar-se profundamente em nossa vida de modo que nossa vida seja uma mensagem viva. A cruz que proclamamos não deve ser simplesmente uma mensagem. Devemos permitir que a cruz seja nossa vida diária. Então o que pregamos será mais do que uma simples mensagem: será uma espécie de vida que exibimos diariamente. Então poderemos conceder essa vida a outros enquanto pregamos.

“Pois a minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida” (João 6:55).

Quando exercitamos fé a fim de nos nutrirmos da cruz do Senhor Jesus, é como se comêssemos da sua carne e bebêssemos do seu sangue. Em tal exercício espiritual, comer e beber não são meras palavras. Como no reino natural, depois de comermos e bebermos, digerimos o que comemos, de forma que isso se torna parte de nós — isto é, torna-se nossa vida. Nosso fracasso repousa no fato de que demasiadas vezes usa¬mos somente nosso intelecto para examinar a Palavra de Deus e somente tomamos com nossa mensagem o que lemos em livros e ouvimos dos pregadores e amigos, e então usamos nossa mente a fim de organizar esse material. Embora tenhamos excelentes pensamentos e tópicos, embora nosso auditório ouça com muita atenção e interesse, nossa obra termina aí, pois somos incapazes de conceder a vida de Deus a eles. A palavra que pregamos é, deveras, a cruz, mas não podemos partilhar a vida da cruz com eles. Tudo o que fizemos foi comunicar-lhes alguns pensamentos e idéias. Não sabemos nós que a necessidade das pessoas não são pensamentos, mas vida?

Continue esta leitura na mensagem VIDA
Autor Watchaman Nee
LIVRO: O Mensageiro da Cruz


O Mensageiro da Cruz – parte 2

“Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiam em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:1-4).

Nesta passagem podemos ver o esboço de três coisas: primeiro, a mensagem que Paulo prega; segundo, o próprio Paulo; e terceiro, como Paulo proclama sua mensagem.

Primeiro: a mensagem que Paulo prega

A mensagem que Paulo prega é Jesus Cristo, e este crucificado. Seu assunto é a cruz de Cristo ou o Cristo da cruz. Ele só sabe isto e nada mais. Que tremenda perda será para os que nos ouvem e também para nós mesmos o nos esquecermos da cruz e não fazermos dela e do seu Cristo nosso único tema. Espero que não estejamos entre aqueles que não pregam a cruz de modo nenhum.
De forma que à luz desta passagem da Escritura, nossa mensagem e nosso tema estejam deveras corretos. Mas não temos tido a experiência de, a despeito da correção de nossa mensagem, não transmitirmos vida às pessoas? Permita-me dizer-lhe, que embora seja essencial pregar a mensagem correta, metade de nosso labor será em vão se não tiver como resultado a recepção de vida pelas pessoas.
Devemos sublinhar que o objetivo de nossa obra é que as pessoas tenham vida. Pregamos a morte substitutiva da cruz a fim de que Deus possa conceder vida aos que crêem. Mas que proveito há em ficarem meramente emocionados e serem levados ao arrependimento (até mesmo aprovando o que pregamos) se sua simpatia for somente superficial e a vida de Deus não entrar neles? Ainda estarão sem a salvação. De modo que nosso objetivo não é levar as pessoas somente ao arrependimento ou influenciar-lhes a mente, mas conceder-lhes a vida de Deus para que sejam salvas. Ainda quando pregamos ao crente a verdade mais profunda referente à co-morte da cruz, devemos ter em vista o mesmo objetivo.
Ora, é muito fácil fazer com que as pessoas conheçam e compreendam certo assunto. Realmente não é difícil persuadir as pessoas a aceitarem mentalmente nosso ensinamento; crentes e incrédulos, da mesma forma, com algum conhecimento, podem, facilmente compreender, se o ensinamento lhes for explicado com clareza. Mas para que recebam vida, poder, e para que experimentem o que pregamos, Deus tem de operar por nosso intermédio a fim de dispensar a vida mais abundante. Não devemos nos esquecer jamais de que tudo o que fazemos é com o propósito de sermos canais da vida de Deus para que essa mesma vida flua para o espírito das pessoas. Portanto, tendo a correção da mensagem e do tema, precisamos ter certeza de que somos canais que Deus possa usar a fim de transmitir vida para as outras pessoas.

Segundo: o próprio Paulo

A mensagem que Paulo prega é a cruz do Senhor Jesus Cristo. O que ele proclama não é em vão, uma vez que é um canal vivo da vida divina. Com o evangelho da cruz, ele gera a muitos. Entretanto, ao pregar a palavra da cruz, o que acontece com ele? Ele diz: “E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós.” Ele próprio é uma pessoa crucificada! Percebamos que é preciso uma pessoa crucificada a fim de pregar a palavra da cruz.
Aqui, Paulo não tem absolutamente nenhuma confiança em si mesmo. Sua fraqueza, temor e grande tremor — o perceber a si mesmo como totalmente inútil e sem nenhuma autoconfiança — são sinais seguros de que ele é uma pessoa crucificada.”Estou crucificado com Cristo”, Paulo certa vez declarou (Gálatas 2:19). A seguir acrescenta: “Dia após dia morro!” (1 Coríntios 15:31). É preciso um Paulo moribundo a fim de proclamar a crucificação. Sem a verdadeira morte do ego, a vida de Cristo não pode fluir dele. É relativamente fácil pregar a cruz, mas ser uma pessoa crucificada na pregação da crucificação, não o é. Se não formos homens e mulheres crucificados, não podemos pregar a palavra da cruz; ninguém receberá a vida da cruz mediante nossa pregação a menos que estejamos crucificados. Para falar francamente, aquele que não conhece a cruz experimentalmente não é digno de pregá-la.

Terceiro: como Paulo proclama sua mensagem

A mensagem de Paulo é a cruz, e ele próprio é uma pessoa crucificada. Ao pregar a cruz, ele adota a maneira da cruz. A pessoa crucificada prega a mensagem da cruz no espírito da cruz. Mui frequentemente o que pregamos é, de fato, a cruz; mas nossa atitude, nossas palavras e nossos sentimentos não parecem testemunhar do que pregamos. Muito da pregação da cruz não é feita no espírito da cruz! Paulo escreveu aos crentes Coríntios: “…quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria.” Aqui, o testemunho de Deus refere-se à palavra da Cruz. Paulo não empregou palavras difíceis de sabedoria ao proclamar a cruz mas foi ter com eles no espírito da cruz: “A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder.” Esse é, verdadeiramente, o espírito da cruz.
A cruz é a sabedoria de Deus, embora para os incrédulos seja loucura. Quando proclamamos a mensagem “louca”, devemos assumir a maneira “louca”, adotar a atitude “louca”, e usar palavras “loucas”. A vitória de Paulo encontra-se no fato de ser ele, deveras, uma pessoa crucificada. Ele pode, portanto, proclamar a cruz com a atitude e também com o espírito da cruz. Aquele que não experimentou a crucificação não está cheio do espírito da cruz e, consequentemente, não é digno de proclamar a mensagem da cruz.
Depois de examinarmos a experiência de Paulo, será que ela não nos mostra a causa de nosso fracasso? A mensagem que pregamos pode estar certa, mas examinemos a nós mesmos à luz do Senhor, discernindo se somos realmente homens e mulheres crucificados. Com que espírito, palavras e atitudes pregamos a cruz? Ah! Que nos humilhemos profundamente perante estas perguntas para que Deus possa ser gracioso a nós e que os que nos ouvem possam receber a vida.
O fracasso das pessoas em receber a vida deve ser falha dos pregadores! Não é que a palavra tenha perdido seu poder; é que os homens têm falhado. Os homens têm impedido o transbordar da vida de Deus, não que a palavra de Deus tenha perdido sua eficácia. Pessoas que não possuem a experiência da cruz e portanto têm falta do espírito da cruz, são incapazes de conceder aos outros a vida da cruz. Como podemos dar a outrem aquilo que nós mesmos não possuímos? A não ser que a cruz se transforme em vida para nós, não podemos conceder essa vida aos outros. O fracasso em nossa obra é devido ao fato de estarmos ansiosos para pregar a cruz sem que essa cruz esteja dentro de nós. Aquele que verdadeiramente sabe pregar deve primeiro ter pregado a palavra para si mesmo. Doutra forma o Espírito Santo não operará por seu intermédio.
A palavra da cruz que tantas vezes proclamamos, na realidade não é nossa, mas emprestada — conseguimo-la, pelo poder mental, em livros ou examinando as Escrituras.
As pessoas inteligentes e os que estão acostumados a pregar têm, em particular, tendência para esse perigo. Receio que toda sua pesquisa, estudo, leituras, assistência a palestras sobre o mistério da cruz em seus aspectos vários sejam para as outras pessoas e não para si mesmas, em primeiro lugar. Pensar consistentemente nos outros e negligenciar nossa própria vida poderá resultar em fome espiritual!
Ao entregar a mensagem, tentamos apresentar o que ouvimos, lemos e pensamos, de uma maneira completa e sincera. Podemos falar tão clara e logicamente que as pessoas no auditório podem pensar compreender tudo. Embora compreendam com o entendimento, não existe aquela força compelidora que os faça procurar o que compreendem.
Como se conhecer a teoria da cruz para eles fosse bastante. Por nossa causa, param com o conhecimento da cruz sem prosseguir a fim de obter o que a cruz poderia dar-lhes — isto é, a experiência da cruz. Ou talvez o pregador conheça muito bem a psicologia das massas de forma que fala com eloquência e sinceridade. Pode até mesmo aconselhar o auditório a não ficar satisfeito com a mera compreensão intelectual do que ouviu mas procurar a experiência. Entretanto, embora seus ouvintes possam ser despertados temporariamente, falham, não obstante, em receber a vida. O que possuem permanece teoria, não se torna experiência.
Que nós, portanto, possamos não estar satisfeitos com nós mesmos, pensando que nossa eloquência pode dominar o auditório. Embora possam ser estimulados momentaneamente, compreendamos que o que recebem de nós são simplesmente pensamentos e palavras. O fracasso em conceder vida nada contribui em absoluto para a caminhada espiritual do homem. Que proveito há em dar às pessoas somente pensamentos e palavras? Minha oração é que isto penetre profundamente em nossos corações e nos faça refletir sobre a vaidade de nossas obras anteriores!
Como já vimos, pois, os dois motivos principais por que não concedemos vida enquanto pregamos a cruz são: (1) nós mesmos não possuímos a experiência da cruz, e (2) não pregamos a palavra da cruz no espírito da cruz.

Autor Watchaman Nee
LIVRO: O Mensageiro da Cruz


O Mensageiro da Cruz – parte 1

Em anos recentes muitos parecem estar cansados de ouvir a mensagem da cruz; entretanto, damos graças a Deus nosso Pai, e o louvamos, pois ele reservou, por amor de seu grande nome, muitos fiéis que não dobraram os joelhos a Baal. Achamos, entretanto, que todos os servos de Deus devem saber por que, embora fielmente proclamem a cruz, vêem tão pouco resultado. Por que as pessoas ouvem a palavra verdadeira de Deus e no entanto suas vidas demonstram tão pequena mudança? Cremos que este assunto deve receber nossa maior atenção. Nós, como trabalhadores do Senhor, devemos saber por que o evangelho que pregamos falha em ganhar pessoas. Que humildemente oremos, pedindo que o Espírito de Deus derrame luz sobre nossos corações a fim de vermos onde falhamos.
Naturalmente, devemos dar atenção à palavra que pregamos. (Aqui não nos preocuparemos com os que pregam um evangelho errado, ou “outro” evangelho, pois sua fé já está em erro.). O que pregamos é a verdade, em perfeito acordo com a Bíblia. Nosso tema é a cruz do Senhor Jesus. O que proclamamos não é outro senão o Senhor Jesus, e este crucificado a fim de salvar os pecadores, tanto da pena como do poder do pecado. Sabemos que nosso Senhor morreu na cruz como substituto dos pecadores para que todos aqueles que crêem nele sejam salvos sem as obras. Entretanto, não somente sabemos que Cristo foi crucificado como nosso substituto, mas sabemos também que os pecadores e seus pecados foram crucificados com ele. Temos conhecimento completo do caminho da salvação. Estamos familiarizados com o segredo do morrer com Cristo e com o conseguir, pela fé, o poder de sua morte a fim de lidar com o ego e também com o pecado. Compreendemos claramente todos os ensinamentos relacionados com este assunto apresentados na Bíblia; e podemos apresentá-los tão bem de modo que todos os apreciem — tão bem, de fato, que quando pregamos a cruz de Cristo, o auditório parece prestar muita atenção e grandemente comover-se. Talvez tenhamos eloquência natural, o que aumenta ainda mais nossa capacidade de emocionar as pessoas — e grandemente ajuda, achamos, nossa obra.
Em tais circunstâncias, naturalmente esperamos que muitos incrédulos recebam a vida e que muitos crentes recebam a vida mais abundante. Entretanto, os resultados são outros, para surpresa nossa. Embora as pessoas, no auditório, pareçam estar emocionadas, descobrimos que meramente retêm na memória as palavras que falamos sem ganhar o que espiritualmente desejamos para elas. Não há mudanças notáveis em sua vida. Compreendem o ensino, mas sua vida diária não é afetada. Simplesmente armazenam o que ouvem, sem que isso tenha qualquer impacto prático em seus corações.
O motivo de um efeito tão contrário como este parece estar no fato de que o que você e eu possuímos é mera eloquência, palavras ou sabedoria. Por trás de nossa palavra não existe o poder que estimula o coração. Nossa palavra e voz podem ser excelentes, entretanto, o poder de transformar vidas está ausente delas. Por outras palavras, embora possamos atrair as pessoas a fim de nos ouvir, o Espírito Santo não tem trabalhado juntamente conosco. E por isso nosso esforço não produz resultado permanente. Nossa palavra não causa nenhuma impressão indelével nas vidas das pessoas. As palavras podem fluir de nossa boca, mas de nosso espírito nenhuma vida é liberada a fim de alimentar e vivificar o auditório espiritualmente árido.
Ultimamente a palavra de Deus tem-me chamado a atenção contra este tipo de pregação. Não devemos procurar ser oradores aclamados pelas pessoas (pois não é o nosso Senhor o doador da vida?); antes, devemos ser meros canais através dos quais a vida dele possa fluir ao coração do homem. Por exemplo, ao pregarmos a cruz, devemos ser aqueles que podem conceder a vida da cruz aos outros. O que me fere grandemente é que, embora muitos hoje estejam pregando a cruz, os ouvintes não parecem receber a vida de Deus. As pessoas ouvem nossas palavras; parecem aprová-las e alegremente recebê-las; entretanto a vida de Deus não está presente.
Quão frequentemente, ao proclamarmos a mensagem da cruz as pessoas aparentam perceber o significado e o motivo para tal morte e podem parecer que estão profundamente comovidas nesse instante; porém não testemunhamos a graça de Deus operando em seu meio e fazendo com que elas realmente recebam a vida de regeneração. Ou, como outro exemplo, podemos pregar sobre o aspecto da co-morte da cruz. Explicamos o ensinamento tão clara e persuasivamente que muitas pessoas logo começam a orar e podem até mesmo decidir-se a morrer instantaneamente com Cristo a fim de experimentar a vitória sobre o pecado e o eu. Com o passar do tempo, entretanto, não percebemos nelas a vida abundante de Deus.
Tais resultados imperfeitos trazem-me muita angústia. Levam-me a humilhar-me perante Deus e a buscar sua luz. Ora, se você partilhar da mesma experiência, gostaria que se juntasse a mim em tristeza perante o Senhor e que juntos nos arrependêssemos de nosso fracasso. O que nos falta hoje são homens e mulheres que verdadeiramente preguem a cruz, e que a preguem especialmente no poder do Espírito Santo.

Com relação a isto, leiamos a seguinte porção da Palavra de Deus:

“Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiam em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:1-4).

Continua……

Autor Watchaman Nee
LIVRO: O Mensageiro da Cruz

DESTA PASSAGEM BÍBLICA O AUTOR ESBOÇA TRÊS COISAS, QUE VEREMOS NA PARTE 2 DE O MENSAGEIRO DA CRUZ.