Morrerei esta Noite – de Mário Barreto França

(Obs: Esta foi a maior poesia que eu já declamei na minha vida – Liliana Viana)

A imprensa anunciou irada e com alarde:

_ “Mais um crime de morte estúpido e cobarde,
Desmerece e nodoa a civilização!…
É preciso a justiça agir com precisão!

O fato, já vulgar em nosso mundo injusto,
Se passou em Chicago: _ Um botequim um susto…
Uma estocada… um grito… um corpo inanimado…
A partilha cruel do dinheiro roubado..
Depois a fuga… o alarme… os tristes comentários…
E o silêncio, afinal, nas folhas dos diários…

Mais, passado algum tempo, é preso o criminoso.
Era um jovem de côr de semblante asqueroso.
A quem, no julgamento, o Egrégio Tribunal
Unânime aplicou a pena capital.

Agora, na prisão, Ernesto Gaither pensa
Na extensão do seu mal, no rigor da sentença,
E procura esconder no silêncio e no jogo,
O crime que lhe traz a consciência em fogo.

Um dia, u`ma mulher de sua triste raça
Notando-lhe no olhar a angústia da desgraça,
Convida-o a assistir a uma reunião,
Para prestar a Deus um culto de oração.

Ernesto esboça irônico sorriso
E, agastado, lhe diz: _ “Não perdi o juízo
A ponto de apelar a quem nem sei se atende!
Eu rejeito esse seu Deus e o seu convite, entende?!

E prosseguiu, calado, o seu jogo de cartas…

Flora Janes, no entanto, insiste: _ Antes que partas
Deste mundo, com Deus faze uma experiência!
Não procures calcar a voz da consciência !
Quando fores deitar, descrente e mau embora,
Pede que ele te acorde à noite, a qualquer hora!
Verás , Ernesto, então, que meu Deus te ouvirá.
E tuas transgressões também perdoará!”

Mesmo que procurasse esquecer a conversa,
Aquele desafio à sua alma perversa
Não pôde resistir; por isso aos céus apela:
_ “Se existe de verdade um Deus, que nesta cela
Eu seja despertado às duas e três quartos!”

De tantas discussões e, tantos jogos farto,
Em seu catre deitou-se e, em pouco ressonava…
Porém, de madrugada, ele acordou: suava…
Levantou-se inquieto… Era silêncio tudo…

Só o seu coração, num desespero mudo,
Batia fortemente; e, fora, os passos lentos
Da guarda, Ernesto ouvia; e, envolto em pensamentos confusos, perguntou, com certa timidez:
_ Guarda, que horas são?”

_ Faltam quinze para às três!”

(Responde o sentinela) e a ronda prosseguiu…

O que naquele instante o incrédulo sentiu
Só Deus compreenderia… Assim, se ajoelhou
E a clemência do Céu humílimo implorou:
_ “Senhor, agora, eu sei que és potente e divino!
Tem piedade, porém, de um mísero assassino!
Sei que sou desgraçado; entanto, a tua mão
Se estendeu para mim num gesto de perdão!…
Não mereço viver, que sou tão mau e ignavo,
Mas para te servir, eu serei teu escravo!
Sinto que, para o bem, algo de ti me induz
E me faz confiar em teu filho Jesus!”

Quando o dia surgiu risonho e ensolarado,
Mostrou-se diferente o pobre condenado.
Ele que prometera um rival justiçar,
Apenas o buscou para lhe anunciar
Que Deus o perdoara: e, por esse motivo,
Não brigaria mais nem seria nocivo…

Isso, aos olhares vis dos outros presidiários,
Em nada o justifica; antes, mais solidários
Torna-os, pelo despeito, em afirmar que Ernesto
Em cada confissão, em cada frase ou gesto,
Uma exemplar conduta estava a simular,
Para da punição da morte se livrar…

Esse juízo falso a seu respeito o fere;
Mas o golpe pior que a vida lhe desfere
Foi a declaração de seu advogado
De que a Suprema Côrte houvera rejeitado
O perdão requerido…

Embora… Estava certo de que, na hora fatal, Deus estava perto,
Bem pertinho de si, para dizer-lhe assim:
_ “Hoje mesmo, meu filho, estarás junto a mim”

Por isso, resolveu deixar u`ma mensagem,
Antes de iniciar sua última viagem:

_ “Ao leres isto, ó moço e amigo, estarei morto!…
Mas com Cristo entrarei seguro noutro porto…
Sou negro; tenho agora os meus vinte e três anos.
Condenado, a chorar meus tristes desenganos,
Tive um sonho esta noite: eu ai para o céu…
Jesus ia ao meu lado… e eu não era um réu…
Eu dava com vigor quatro passos, enquanto
Ele só dava dois.

Por que te apressas tanto?
(ele me perguntou)
_ É que estou pressuroso
De lá chegar Senhor!

E, repleto de gôzo,
De repente cheguei; e os anjos me rodearam;
E um cântico celeste, uníssono, entoaram…

Ao leres isto moço, estarei morto! Agora,
Se ouvires Deus chamar-te atende-O sem demora!
Enquanto és jovem, põe os dons que te compensam
No serviço de Mestre e será uma bênção !

O drama que eu vivi te seja claro aviso:
Quem se afasta de Deus despreza um paraíso!…
Não permitas que o vício enlace a tua vida,
Mas faze de tua alma uma luz refletida
No evangelho de amor dos feitos de Jesus;
E o teu rumo será um caminho de luz…

O preço do pecado é certamente a morte,
Porém o dom de Deus é a vida eterna e forte
Em Cristo, nosso rei e nosso Salvador !

Minha condenação foi do crime um açoite;
Afinal, morrerei no decorrer da noite!”

Perto da meia-noite, alguém foi vê-lo e ouvi-lo
Tendo um sereno olhar num rosto bem tranqüilo,
Ele pediu para ler o seu texto predileto:
_ “Pra mim o viver é Cristo ressurreto
E a morte é lucro, sim, porque de ambos os lados
Eu sinto os aguilhões terríveis dos pecados…
Eu desejo partir e estar com o meu Senhor
E com ele viver, o que é muito melhor!”

E recitou, depois o Salmos vinte e três
Que a todos pareceu mais belo, dessa vez:
E mesmo que da morte ao vale ande em perigo,
Não temo mal algum, pois tu estás comigo.”

Seus minutos finais o relógio escoava;
Fora da cela, a escolta em silêncio escutava…
Ernesto a contemplou com franco e terno olhar;
Depois disse a sorrir:

_ “Quero agora cantar
Meu hino preferido!”

E, abrindo o seu cantor,
Soltou a sua voz bonita de tenor:

“Quando Cristo sua trombeta
Lá no Céu mandar tocar;
Quando o dia mui glorioso lá romper ,
E aos remidos desta terra
Meu Jesus se incorporar
E fizer-se então chamada, lá estarei,

Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada,
Quando se fizer chamada, lá estarei”

Depois se ajoelhou e fez uma oração:

_ Ó Deus quando cheguei aqui nesta prisão,
Eu adiava tudo e a todos com arrogância,
Por me trazerem sempre em árdua vigilância;

Mas agora, Senhor, contra ninguém reclamo;
A todos já perdoei, que a tudo e a todos amo.
Ah! Consola mamãe que tanto a fiz sofrer…
E ajuda os que ofendi…Eu sei: não vou morrer,
Vou apenas sentar-me… e dormir… e sonhar…
Para no teu regaço amigo despertar…

Levaram-no, depois, à câmara da morte;
Sem ódio, à própria escolta anima, calmo e forte,
Olha o assento fatal no fundo do salão;
Deixando-se guiar, sem resistir, sentou-se;
A todos estendeu um olhar manso e doce;
A primeira descarga, a cabeça pendeu
E a Deus, serenamente, o espírito rendeu.

Assim, na nossa vida, as faltas praticadas
Nos levam da consciência ao justo tribunal
Que, em face das sanções de eternas leis sagradas,
Nos aplica também a pena capital.

Convertidos, porém, a Deus, de almas serenas,
Possa cada um de nós, na hora extrema falar:
_ “Não! Eu não vou morrer! Eu vou dormir, apenas,
E nos braços de Cristo, alegre, despertar.”

17 respostas

  1. maria jose

    DECLAMEI ESTA POESIA EM 1974 DECLAMEI POR VOLTA DE 2001 NAO PODIA LEMBRQDO ENCONTREI AQUI ME EMOCIONEI QUERO DECLAMA LA DE NOVO POR FAVOR ME ENVIE

    24 de março de 2011 às 0:13

  2. elezeni da silva guerra

    Sou elezeni,membro da PIB Piracicaba,adoro declamar poesias ,tenho umas 20 decoradas ,só de Mário Barreto França ,que aliáz sou fã demais de suas poesias ,LINDAS ,INSPIRADAS ,MARAVILHOSAS!!!!
    Na verdade a maior que já declamei foi MORREREI ESSA NOITE ,declamei muitas vezes ,penso que devia ser reedidados os seus livros ,pois, ñ sei onde encontrar p/ comprar.Se souberem algo mais ,por favor me avisem. abraços, e que Deus os abençoe.

    23 de novembro de 2011 às 12:27

    • Por Causa da Flor

      Querida irmã, vou ver se consigo um tempo para digitar esta poesia para você. Em Cristo, Liliana

      14 de dezembro de 2011 às 15:32

  3. Magda

    Hoje estou com 64 anos, mas quando era jovem recitei esta poesia várias vezes e ainda sei ela de cór. Agora, estou tentando recordar TRAÇO DE UNIÃO mas está muito difícil, mesmo assim continuo tentado, se não for para este Natal pode ser para o que vem em 2012. Fiquem aí torcendo por mim OK?

    16 de dezembro de 2011 às 1:09

    • Por Causa da Flor

      Querida Magda, o Senhor irá te ajudar. Tive uma experiência assim. Há muitos anos eu havia decorado uma pequena poesia e só conseguia me lembrar do titulo. Orei a Deus e pedi que me desse de presente, no ano que eu estava fazendo 15 anos de declamação (1986). Ele foi fiel. Um dia, de repente, a poesia se desenrolou em minha mente. Comecei anotar tudo correndo, mas não precisava. O Senhor trouxe à memória para ficar. Deus é o Senhor dos nossos dons e talentos. Tudo é dEle. O que O honra, Ele aprova. Estou orando por você.

      Em Cristo, Liliana Viana

      5 de março de 2012 às 12:48

      • Viviane R Carvalho

        Lindo testemunho!

        7 de agosto de 2012 às 20:04

    • Zilda Costa

      Magda, eu tenho esta poesia. mande-me o teu email que enviarei.
      duda.cos@hotmail.com é o meu email. ,mande-me o teu.

      6 de fevereiro de 2014 às 16:14

  4. Paulo Brito

    São lindas as oesias.
    parabéns pelo seu bom gosto.
    Voce tem alguma de NATAL de Mario Barreto Frnça?

    Pode me enviar.

    20 de dezembro de 2011 às 20:36

  5. DANILO

    UMA VEZ OUVÍ UMAPOESIA DE MÁRIO BARRETO FRANÇA QUE SE CHAMA: “MORRO ESTA TARDE??” NÃO TENHO CERTEZA QUE SEJA ESSE O TÍTULO MAS, É MUITO BONITA… SE ALGUEM PODER ME AJUDAR… AGRADEÇO!

    26 de março de 2012 às 13:06

    • Marluce Oliveira

      Ola Danilo, acredito que a poesia que mencionou e MORREREI ESTA NOITE de Mario Barreto Franca, declamo ela ja ha muitos anos . se quiser a copia me envie um email, o meu e mar.luce.45@hotmail.com.

      13 de outubro de 2013 às 17:50

  6. Goreth

    É linda demais esta poesia. Gostaria de saber se alguém não teria a poesia “Os Estatutos de Deus” de Mário Barreto França. Se tiver e puder me enviar assim como outras poesias deste poeta querido, agradeceria imensamente. Obrigada, que a paz do Senhor reine em sua vida.

    1 de junho de 2012 às 17:53

  7. JOAO CARLOS FERNANDES DE SOUZA

    TENHO VARIAS POESIAS DECORADAS E COPIADAS DE MARIO BARRETO FRANÇA, E O SINO NÃO TOCOU, SÓ PRECISO DE AMOR, ETC.

    29 de outubro de 2012 às 21:25

    • Por Causa da Flor

      João, Se vc puder, me enviei poesias digitadas. Isto me ajudaria bastante. Fica na paz!

      10 de fevereiro de 2013 às 16:13

  8. ana maria

    Preciso urgentemente da poesia de mario barreto frança So preciso de amor me envie ou publique

    29 de outubro de 2012 às 22:00

  9. ana maria

    Parabéns!
    Se você tiver a poesia só preciso de amor, peço-lhe que envie ao meu e mail ou publique
    Estou precisando dela

    14 de novembro de 2012 às 18:39

  10. neuma pereira da silva

    tenho o livro de Mario Barreto França, título primicias de minha seara

    se alguem quizer cópia só entrar em contato comigo,que mando fazer

    e a pessôa só paga pela xerox

    16 de abril de 2013 às 18:06

  11. Zilda Maria Santiago de Araújo

    Sou admiradora e costumo declamar poesias de Mário Barreto França, Gióia Júnior, José Menezes e outras. João, se você puder me envie algumas poesias que você tem, e com certeza, eu também passarei as que eu tenho.Fica na paz! 14 de Agosto de 2013 às 9:35.

    14 de agosto de 2013 às 12:30

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